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quinta-feira, 26 de outubro de 2017

SAÚDE NO BLOG

A LÁGRIMA
por Drauzio Varella*

As lágrimas têm a função de manter os olhos lubrificados e livres da presença de partículas estranhas e substâncias irritantes. As que se formam durante o choro são causadas por emoções internas: tristeza, alegria, prazer, comoção, amor, empatia com o sofrimento ou a felicidade alheia. Podem ser provocadas, também, pelo riso e por bocejos.
Lágrimas criam um biofilme que cobre a córnea – a parte mais externa do globo ocular. São formadas por três camadas distintas:
1) Camada lipídica: produzida por pequenas glândulas acessórias (glândulas de Meibomius), arma uma barreira oleosa (hidrofóbica) que circunda as lágrimas e as impede de rolar pela face;
2) Camada aquosa: contém íons e mais de 60 substâncias, entre as quais aminoácidos, enzimas, anticorpos e compostos com atividade bactericida. Promove o espalhamento do biofilme para cobrir toda a superfície ocular e ganhar eficiência no combate às infecções;
3) Camada de mucina: camada hidrofílica que recobre e protege a córnea e facilita a distribuição homogênea das lágrimas pela superfície.
O lacrimejamento é controlado pelas glândulas que secretam a lágrima. Uma vez produzida, ela flui por canais (dutos excretórios) para o espaço entre as pupilas e as pálpebras. Ao piscarmos, o líquido é espalhado para se acumular no lago lacrimal, situado no canto interno do olho, de onde escoa através do duto nasolacrimal, na direção das fossas nasais (que ficam obstruídas durante o choro). Existem três tipos de lacrimejamento:
1) Lacrimejamento basal: é constante e mantém a córnea permanentemente úmida, bem nutrida e livre de partículas estranhas. Enzimas, proteínas bactericidas e anticorpos criam a barreira de defesa contra microrganismos;
2) Lacrimejamento reflexo: resulta da resposta à irritação causada pelo contato com substâncias irritantes, como aquelas que emanam da cebola, gás lacrimogêneo ou spray de pimenta. Pode surgir, também, com a exposição a luzes de brilho intenso, com estímulos térmicos ou de pimenta aplicados na boca ou, ainda, nos episódios de vômito, tosse ou bocejo;
3) Lacrimejamento psicogênico: ocorre sob a ação de estresses emocionais. Não está restrito a emoções negativas (raiva, tristeza, luto ou dor física); podemos chorar de felicidade ou de tanto rir. As lágrimas assim produzidas têm composição especial. São mais ricas do que as basais e as reflexas, em hormônios como a prolactina, ACTH, testosterona e leucoencefalina.
O controle sensitivo do reflexo para lacrimejar fica por conta do nervo trigêmeo, o quinto par craniano. Quando o trigêmio é seccionado, o lacrimejamento reflexo é interrompido, mas as lágrimas causadas por emoções ficam preservadas.
O controle motor é involuntário, sob o comando do nervo facial, o sétimo par craniano. Nos recém-nascidos, a falta de coordenação da resposta aos estímulos nervosos explica por que os bebês conseguem “chorar sem lágrimas”.
A qualidade da visão é afetada pela estabilidade do biofilme que recobre a córnea. O ressecamento, a produção excessiva e a composição bioquímica das lágrimas são causas de diversas patologias oculares.

(*) Drauzio Varella é médico cancerologista, formado pela USP. Nasceu em São Paulo, em 1943. Foi um dos fundadores do Curso Objetivo, onde lecionou química durante muitos anos.

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