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segunda-feira, 7 de agosto de 2017

TEXTO DO BLOG

PRATICIDADE E TERNURA
por Nahman Armony*

O amor, em sua riqueza, comporta vários pares de opostos. Entre eles, a dupla sensível/prático. Na vida real, esses dois modos de expressar o amor em geral se misturam em várias proporções; mas convém separá-los em seus dois extremos para efeito de compreensão. A relação mãe-filho exemplifica bem essa duplicidade.
Podemos idear uma mãe com dificuldade de contato físico: não consegue dar ao filho o carinho, o colo, o estímulo tátil de que necessita. Não que deixe de levar o filho ao regaço; mas o faz sem muito carinho — quase, talvez, como se carregasse um embrulho. “Não se estraga o filho com mimos”, era a desculpa que antigamente se dava a essa atitude. O amor dessa mãe se expressa nos cuidados materiais. Tudo é perfeito: a mamadeira cintila de limpeza, o leite tem a temperatura certa, as roupas são imaculadas, o quarto é higienizado, a saúde física recebe atendimento imediato, e mais e mais. Este, o amor prático. Em contrapartida, a mãe de amor sensível é capaz de relação íntima com o bebê, de pele e adivinhação, de carinho extremo, de brincadeiras divertidas, de trocas que são mútuos estímulos para entrarem numa esfera de paz, enlevo, alegria, harmonia.
Mas, por outro lado é desorganizada e desleixada.
Nos adultos reconheceríamos o amor prático quando o parceiro exercesse suas funções sociais, econômicas, humanitárias e domésticas. A casa bem arrumada, abastecida, a reunião bem planejada com bufê original e saboroso, a dedicação ao consorte em situação de doença, o comparecimento a festas e reuniões importantes, a ajuda financeira nas emergências, a disposição de gastar o que for necessário para poupar sofrimento e dar conforto e segurança ao ser amado.
Quanto ao amor sensível, este acompanha a pessoa amada em seus sutis desdobramentos e derivações, permitindo uma compreensão e ação tão refinadas que a um observador pareceria bruxaria, adivinhação a ultrapassar a barreira dos sentidos. Vinicius de Moraes  o expressa muito bem no seu Soneto da Fidelidade: “De tudo, ao meu amor serei atento/ Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto/ Que mesmo em face do maior encanto/ Dele se encante mais meu pensamento.”
Acompanhemos o poeta em sua comovente devoção: atento ao seu amor, capaz de sintonizar com o deslizar de afetos, emoções e desejos da amada, é a própria dedicação que a torna a mulher mais encantada do mundo. Vinicius aqui não fala dos aspectos materiais da vida. Ele está falando do amor que se realiza na aguçada percepção dos estados de espírito, dos desejos, das insatisfações e desconfortos do parceiro. A percepção permite que haja respeito à sensibilidade e tolerância à suscetibilidade. O amor sensível exige especial despojamento do casal, cuja recompensa é a intensa e deleitosa troca afetiva.
É comum encontrarem-se amores sensíveis sem seu complemento prático. São pessoas que, embora coloquem em ação uma sensibilidade que lhes permite intuir e atender à subjetividade do parceiro, criando um vínculo forte, não conseguem ajudá-lo quando se trata de questões materiais. O inverso é também verdadeiro. Algumas pessoas, com dificuldade de estabelecer relações íntimas, manifestam seu amor com extremados cuidados práticos. Não se pense, porém, em desamor, pois estamos diante de  características quase intransponíveis, advindas das vicissitudes do crescimento pessoal.
Em geral o amor sensível é acompanhado de amor prático. Mas também ocorre que a maior ou menor proporção de um e de outro criem problemas na relação. Por isso é importante tomar consciência do tipo de sentimento que nutrimos pelo outro: podemos nos dedicar a desenvolver melhor a sensibilidade ou o nosso lado prático, o que favorece o equilíbrio que leva à harmonia.               

(*) Nahman Armony, médico psicanalista, é membro da Sociedade de Psicanálise Iracy Doyle (Spid), do Círculo Psicanalítico do Rio de Janeiro e da Federação Internacional das Sociedades Psicanalíticas. Publicou, entre outros livros, Borderline: Uma Outra Normalidade. E-mail: nahman@uol.com.br

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