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segunda-feira, 31 de julho de 2017

TEXTO DO BLOG

APIMENTAR A RELAÇÃO? NÃO...
por Ivan Martins*

Toda vez que alguém me fala em apimentar a relação, tenho vontade de rir e dizer: esqueça! Meu conselho é que a pessoa vá à feira, compre um bom pedaço de badejo, mande fatiar cuidadosamente e faça uma moqueca rica de dendê, leite de coco e pimenta. Esse é o melhor tempero que se pode pôr na relação de qualquer casal, já que tudo fica mais gostoso depois de uma moqueca.
Na vida real, não há artifício capaz de erotizar relações que se esvaziaram de desejo. Você pode ver um vídeo pornô junto com ele (é divertido) ou ele pode surpreendê-la usando pílulas de virilidade (que funcionam muito bem). Mas, se as pessoas não acharem dentro de si o tesão pelo parceiro ou pela parceira, nem a fantasia pornô e nem a química farmacêutica adiantarão. Em dois dias – ou em uma semana – tudo estará de volta ao ponto de partida.
A vontade que a gente tem de transar com o outro nasce e se alimenta dos sentimentos. Ela vem da nossa subjetividade. Não é ditada quimicamente pelos hormônios e nem induzida por estímulos externos. Algo na outra pessoa ativa alguma coisa em nós, que nos puxa em direção a ela. Um comprimido que aumenta a potência pode ampliar o efeito desse desejo e as fantasias eróticas podem intensificá-lo, mas é necessário que o desejo esteja lá, originalmente, ou as coisas não acontecerão.
As pessoas que vendem soluções eróticas para casais cansados se esquecem desse detalhe. Fingem que uma viagem romântica, um novo lingerie ou uma plástica custosa podem reacender por conta própria o desejo que desapareceu. Infelizmente não é assim – e, ao mesmo tempo, é bom que não seja. A falta de desejo nos obriga a olhar para o que há de importante num relacionamento (a conexão emocional e física entre os parceiros) e não para a prateleira do sex shop. Soluções de consumo apontam na direção errada.
Somos preocupados demais com a aparência, por exemplo, mas ela não é tão decisiva na construção do erotismo. A pessoa mais bonita do mundo não é a que mais nos excita e nos atrai. Na verdade, ela nos afeta eroticamente apenas se entrar em contato com as nossas fantasias. Quando sentimos que alguém é irresistível, é porque há naquela pessoa algo que se conecta diretamente aos nossos devaneios. A atração sexual que sentimos por alguém depende da nossa história e de preferências que nem conseguimos explicar, mas estão lá, pulsando.
Mais importante do que a aparência para compreender nosso desejo é a personalidade do outro. É com ela que nos relacionamos o tempo inteiro. O corpo – por lindo que seja, ou por gasto que esteja – é a superfície de algo maior e mais profundo. É com essa vasta e intangível entidade (a subjetividade do outro) que os nossos sentimentos se conectam. O erotismo passa pelo corpo do outro, mas é dirigido a algo que vai além dele. Um corpo, ainda que perfeito, não sustenta sozinho o erotismo de ninguém. Se não houver envolvimento das personalidades, o desejo se esvai em poucos dias.
Para um casal que perdeu a vontade de se tocar, beijar e transar – mas ainda se gosta e tem vontade de seguir junto –, de que adianta saber isso tudo?
Em primeiro lugar, acho que saber ajuda a não olhar nos lugares errados em busca de respostas. É improvável que uma plástica traga o desejo de volta, e as viagens ao sex shop, em busca de brinquedinhos e peças íntimas, podem produzir frustração e constrangimento. Aquilo que as pessoas costumam chamar de pimenta funciona quando tudo está bem e o casal está a fim de ampliar a farra, às vezes até incluindo outras pessoas. Mas, quando as coisas esfriaram – e os sentimentos se distanciaram –, duvido que acessórios, orgias ou silicone reaproximem as pessoas.
Erotismo é uma conexão, uma liberdade com o corpo do outro, uma urgência que o olhar e a voz dele ou dela nos transmitem. Essas coisas partem de nós e precisam ser reavivadas. Não sei como se faz isso e suspeito que ninguém saiba, mas eu começaria pela tentativa de estar a sós com a outra pessoa, sem pressa e sem pressões. Em situações tranquilas – que podem ocorrer numa viagem, mas podem acontecer também na sala de casa, num dia sem crianças, lendo ou vendo um filme –, a gente tem chance de estar intimamente com o outro, e isso costuma ser erótico. Comer, sobretudo com o acompanhamento de bebidas alcoólicas, é uma porta usual para outros prazeres e estados de espírito melhores. Ao redor de um copo e de um prato, a gente relaxa, fica mais interessante, se sente mais seguro e mais emotivo. Todas essas coisas têm a vocação de nos levar ao sexo.
Estamos falando de ocasiões, porém. Elas podem ser atalhos que andavam perdidos e que nos colocam em contato com a nossa sensualidade e a do outro. Mas, no longo prazo, os casais precisam buscar dentro de si o interesse duradouro pelo parceiro ou pela parceira. É daí que deriva o resto: o que ela ou ele tem a me contar? Como seu corpo se move pela casa? O que contam seus olhos quando sorriem? É do encantamento sutil ou visceral que vêm a vontade de tocar nos cabelos, o gesto instintivo de abraçar os quadris, o beijo na calçada, na porta da padaria, quando a temperatura desce a 9°C e o mundo parece ter se concentrado numa única pessoa. Enquanto houver esse tipo de conexão – subjetiva e erótica – o resto estará bem encaminhado.
Quando o vínculo desaparece, ou se torna tênue e raro, há duas opções. Uma é permanecer na relação, em nome de todo o resto, e aproveitar do erotismo quando ele aparecer, de vez em quando. A vida humana é rica de possibilidades e o sexo, em determinados contextos, pode não ser a coisa mais relevante. Não há nada de errado nisso, sobretudo em relações antigas.
A outra opção é decidir que, sem o elemento do desejo, manifestado de forma intensa e frequente, a relação não faz sentido – e então seria a hora de mover-se em outra direção, na busca de outra pessoa, lembrando, porém, que, dentro de algum tempo, a mesma situação de inapetência pode se manifestar, de novo.
Eu não sei qual das duas é a escolha certa. Na minha vida, já fiz as duas, com ganhos e perdas em cada uma delas. Não tenho conselhos para dar. O que eu sei – por sentir e por estudar – é que esse negócio de desejo é fundamental em nossa vida, mas não tem apenas uma forma, e nem apenas um jeito de ser. Ele varia de pessoa para pessoa e, mesmo em cada um de nós, pode mudar de direção e de gosto com o tempo. Há que ser aproveitar disso e viver melhor. Não há magias e nem pimentas, mas há mudanças e moqueca. Com umas e com outra, a gente se vira.

(*) Ivan Martins é editor-executivo da revista Época, autor do livro Alguém especial e escreve em epoca.com.br

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