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quinta-feira, 27 de julho de 2017

TEXTO DO BLOG

72 ANOS DEPOIS
por Luis Fernando Veríssimo*

Neste agosto faz 72 anos do lançamento das bombas atômicas em Hiroshima e Nagasaki que encerraram a Segunda Guerra Mundial.
Eu estava em Nova York e me lembro dos festejos na rua pelo fim da guerra.
Nem eu, às vésperas dos meus 9 anos, nem a multidão nos dávamos conta do momento duplamente histórico — o fim da guerra e o nascimento da era atômica — que vivíamos. Mas quando escreverem a história da nossa geração, é das bombas que falarão, e não da nossa festa.
Somos seus contemporâneos, marcados para sempre por elas, como sobreviventes das explosões.
72 anos ainda é pouco para avaliar o que fizemos em Hiroshima e Nagasaki. A poeira ainda não baixou. Algumas feridas ainda não fecharam.
Harry Truman, o presidente que ordenou o bombardeio, está não só vivo na memória do povo americano como virou herói nostálgico. Era um ex-camiseiro rude e prático do Meio-Oeste, com aquela mediocridade resoluta que os americanos confundem com sabedoria política e gostam de identificar com as melhores virtudes populistas.
Sem rodeios, com o mesmo senso comum que lhe garantiu o afeto retroativo do público, Truman ordenou o aniquilamento de duas populações inteiras sem perder o sono.
Hoje se sabe que os japoneses faziam contatos com os aliados para negociarem a rendição muito antes de os B-29 decolarem.
Truman também poderia ter demonstrado o poder das bombas em algum lugar desabitado para forçar a rendição incondicional do inimigo.
Como era um homem prático, ou tinha conselheiros práticos, sabia que não estava apenas encerrando uma guerra como dando o primeiro tiro na provável guerra seguinte, contra a União Soviética, e preferiu que o mundo sentisse na pele o terror da nova arma.
Justificou-se perante a história alegando que a obliteração de Hiroshima e Nagasaki tinha encurtado a guerra e poupado vidas. Principalmente as vidas de americanos numa invasão do Japão.
Outra pergunta que ainda se faz é, se a guerra na Europa, que acabou antes da guerra no Pacifico, tivesse se prolongado, bombas atômicas teriam sido usadas contra a Alemanha? Acho que não.
Harry Truman, esse nosso pitoresco contemporâneo, morreu de velhice, cercado pelo carinho dos netos e o respeito da nação.

(*) Luis Fernando Veríssimo é  escritor.

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