Seja bem vindo ao "Blog do Borjão"

sexta-feira, 16 de junho de 2017

TEXTO DO BLOG

2017 COM VESTÍGIOS DE 1968
por Gaudêncio Torquato*

1968, o ano que não terminou. O livro de Zuenir Ventura, essa mitológica figura do jornalismo, que ainda nos brinda com a leveza de sua pena nas crônicas dos sábados em O Globo, lembra o terror que significam aqueles idos para este escriba. Em março daquele ano, iniciava, aos 22 anos, minha experiência no magistério de jornalismo, ao ser convidado pelo professor José Marques de Melo para integrar o corpo docente da Faculdade Cásper Líbero, a mais antiga escola de jornalismo da América Latina.
Respirava-se um clima pesado. O medo se incrustava em todos os espaços. Professor iniciante, carregando o forte sotaque nordestino que tanto mexia com o riso dos alunos, passei  a exercitar o policiamento mental na escolha de termos, alguns proibidos pela repressão da ditadura. Risquei do meu vocabulário, por exemplo, o termo “comunidade” por ter conotação com comunismo, de acordo com a cartilha que nos foi apresentada na época, aplicada também com rigor na Escola de Comunicações da USP (ECA) em 1969, quando lá ingressei por concurso  em 1969.
Os tempos de chumbo pesavam sobre nossas cabeças. Em 28 de março de 1968, ao invadirem o restaurante Calabouço, no Rio de Janeiro, policiais militares mataram o estudante Edson Luis de Lima Souto. O assassinato gerou uma onda de indignação em todo o país, acirrando ânimos e intensificando tensões sociais. Manifestações explodiam, até chegarem ao dia 3 de outubro daquele ano, quando estudantes do Mackenzie, da rua Maria Antônia, entraram em luta corporal com os estudantes da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP, localizada na vizinha dr. Vila Nova.
Encontrava-me ali no palco de guerra, até porque morava na esquina da Vila Nova com Major Sertório, diante da praça  Rotary e da biblioteca Monteiro Lobato, na Vila Buarque. Portanto, no meio da confusão, não pude evitar as lágrimas provocadas pelas bombas de gás lacrimogêneo lançadas pela polícia. O medo nos seguia por todas as partes, não apenas em salas de aula. Até no Largo do Arouche ele se escancarava, principalmente à noitinha, quando saíamos em grupo da Folha de São Paulo, na barão de Limeira, onde trabalhávamos no departamento de Suplementos Especiais, para tomar um chopinho no bar Pingão. De repente, apareciam um, dois e até três sujeitos desconhecidos, que, sem mais nem menos, começavam a puxar conversa. Tínhamos certeza de que eram dedos duros sob comando do Dops. Invariavelmente, esses estranhos seres, com sua imensa cara de pau, se achavam no direito de invadir a privacidade de pessoas que não os conheciam. Temíamos expulsá-los da mesa. Receio de represálias.
ESTADO POLICIALESCO
Eram esses alguns costumes dos tempos obscuros do Estado policialesco, inaugurado em 1964. De outra feita, como chefe de departamento de jornalismo da ECA-USP, acompanhei o professor José Coelho Sobrinho ao Dops para explicar a natureza do jornal laboratório feito pelos alunos para a “comunidade”(ops, não pode) da favela San Remo, ali colada ao campus do Butantã. Não fomos trancafiados, mas a ameaça permaneceu gravada por muito tempo em nossas mentes.
Qual a finalidade do presente relato? Puxar para a ordem do dia o fio do rolo compressor de 1968, na constatação de que a hipótese de Zuenir tem condições de ser confirmada. O Brasil atravessa uma estrada íngreme e cheio de curvas, muitas abertas pelos próprios operadores do Direito. A Suprema Corte entra a fundo na esfera política, ampliando a modelagem que se convencionou chamar de judicialização da política. Ministros substituem sua missão de intérpretes da letra constitucional para adentrarem profundamente no território da política. Tornam-se praticamente tribunos do direito penal. O Ministério Público encampa o mapa das investigações e, de maneira considerada açodada, faz uma devassa na vida de partidos e seus integrantes.
O Procurador Geral mais parece empenhado em fazer uma guerra pessoal contra a instituição da presidência.  A Corte Eleitoral, nos termos de seu próprio presidente, mostra-se açodada e alguns de seus membros estão motivados por uma “sanha punitiva”. Prisões ocorrem quase diariamente, na demonstração de que o país se transforma em gigantesca delegacia de polícia. Investigação, devassa, busca e apreensão, prisões, condução coercitiva passam a substituir os termos do dicionário político. Por todos os lados, meios de gravação, ações controladas sob coordenação da Polícia Federal, Ministério Público e decisão de altos magistrados.
Até os profissionais que formam o balão da Opinião Pública – jornalistas, comentaristas, analistas da moldura político-institucional – assumem, publicamente, o papel de julgadores, condenando uns, pedindo a renúncia de outros de seus cargos, vestindo o manto de São Jorge e brandindo a espada contra os dragões da maldade, nesse caso, os políticos. Redes de comunicação, que são concessões do Estado, investem-se da toga de juízes e ordenam seus profissionais a produzir catilinárias contra governantes.
Aqui e ali, percebem-se sinais de que há boi na linha, indicando que interlocutores que, por alguma razão, façam parte da tuba de ressonância, estejam sendo bisbilhotados (na expressão mais galhofeira) ou, melhor, grampeados (na expressão do Estado Policial) por solicitação e decisão de uns e outros que elegem Maquiavel como modelo do modus faciendi de operadores do Direito. A suspeita passou a ser recorrente entre interlocutores. E o medo passou a grassar em grupos da esfera política e de profissionais liberais.
Ou o serviço telefônico chegou ao fundo do poço em matéria de qualidade ou as redes de grampo nunca foram tão operadas quanto hoje. Junho de 2017 parece, e muito, com os olhos do Big Brother de 1968.

(*) Gaudêncio Torquato, jornalista, é professor titular da USP, consultor político e de comunicação Twitter@gaudtorquato

Nenhum comentário: