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segunda-feira, 22 de maio de 2017

TEXTO DO BLOG

AMADURECIMENTO
por Nahman Armony*

Este texto dirige-se aos jovens, que, devido ao privilégio provisório da juventude, não tiveram tempo de consolidar a autoestima e seu sentimento de identidade adulta. Espera-se que tais condições ocorram no futuro, quando se realizarem na profissão que escolheram, obtendo o reconhecimento dos pares, integrando-se na comunidade e sentindo competência ao aprenderem a lidar com fracassos ocasionais. Por enquanto, estão vulneráveis e precisam defender a autoestima e a identidade adulta em formação. São circunstâncias que complicam relações interpessoais, em especial as amorosas. Por exemplo, uma simples discordância poderá ser vivida como rejeição se atingir profundos sentimentos inconscientes. “Se você não concorda comigo é porque não me ama, não me valoriza, não me reconhece”, diria o inconsciente da pessoa.
Existe aí um complicador. Casais jovens tendem a fantasiar uma relação perfeita, sem discrepâncias: um parceiro-espelho que pensa e sente exatamente igual. Aqui, ultrapassamos a questão da auto-estima e da identidade para entrarmos na fantasia do ser completo.
A auto-estima e o sentimento de identidade ainda não consolidados exigem defesas que aparecem nas relações amorosas como competição e luta pelo poder. A pessoa tem medo de mostrar seus desejos e carências, sua necessidade do outro, pois acha que isso a coloca em posição inferior, à mercê do parceiro, sem poder se defender se for atacada. Um modo de eliminar o perigo é controlar o companheiro, tentando obrigá-lo a agir conforme o desejado, monitorando seus passos. Abole-se a sua autonomia e neutraliza-se a periculosidade, tornando-o escravo obediente e solícito. A ameaça, aqui, não se refere só a autoestima e identidade. Tem a ver também com o medo de abandono. Uma pessoa controlada jamais poderá deixar a relação. A idéia é a de que ela permanece na relação não por amor, mas por um controle onipotente.
A pessoa ainda insegura de sua identidade adulta poderá afivelar uma máscara de perfeição, com a expectativa de que o escolhido para cúmplice amoroso a auxilie a mantê-la: uma observação que aponte uma falha, um erro ou diferença entre ambos corre o risco de ser sentida como traição do papel assegurador que lhe foi atribuído.
Tais dinâmicas se formam nas relações primitivas com figuras significativas (pai, mãe, família) e condicionam a entrada da pessoa no mundo adulto.
Alguns felizardos chegam à maturidade fácil e rapidamente, enquanto outros, atrapalhados por seus fantasmas, terão mais ou menos dificuldades em alcançá-la. A aquisição de uma identidade adulta, ligada à luta por um lugar no social, é mais um auxiliar para a superação de obstáculos psíquicos que adquirimos ao longo de nosso desenvolvimento.
Quanto mais próximos estivermos da maturidade, mais transformaremos a relação competitiva em relação de compreensão. Se não nos preocuparmos com a preservação de nossa auto-estima, mais livres estaremos para perceber e compreender a subjetividade do parceiro. O caminho que vai da competição à compreensão exige um esforço psíquico, que se apoiará no amor pelo outro e na importância do amor para a vida de cada um.
Carece apostar no futuro, na capacidade de auto-realização que trará maior consistência pessoal. Entrementes, será vantajoso sentir que o esforço em renunciar à suscetibilidade narcísica, trocando-a por uma compreensão da subjetividade do outro é, a médio ou longo prazo, recompensador. “Agüentem o tranco que vale a pena”, é o que tenho a dizer para jovens de todas as idades — o que inclui, pois, todos os que estão em processo de consolidação da identidade adulta. Vale a pena confiar no parceiro e no poder do amor. E amadurecer.

(*) Nahman Armony, médico psicanalista, é membro da Sociedade de Psicanálise Iracy Doyle (Spid), do Círculo Psicanalítico do Rio de Janeiro e da Federação Internacional das Sociedades Psicanalíticas. Publicou, entre outros livros, Borderline: Uma Outra Normalidade. E-mail: nahman@uol.com.br

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