Seja bem vindo ao "Blog do Borjão"

segunda-feira, 17 de abril de 2017

TEXTO DO BLOG

A NOVA GRANDE FUGA DE BRASILEIROS
por Walcyr Carrasco*

De tempos em tempos, acontece. Brasileiros fogem do Brasil. Não tenho dados estatísticos, mas nunca vi tanta gente sair do país ou, pelo menos, manter um apartamento no exterior. Miami é um dos destinos prediletos. Um apartamento lá, diante dos padrões brasileiros, em que os imóveis estão nas alturas, tem preço bom. É um pouco complicado comprar. Pelas leis americanas, a questão da herança fica difícil, se a propriedade está em nome pessoal. O brasileiro costuma montar uma empresa e colocar o apartamento no nome dela. Pode candidatar-se também a empréstimos, com longos prazos de pagamento. A passagem para Miami não custa absurdos. Em períodos próximos de Ano-Novo e Carnaval, é mais barata que a ponte aérea São Paulo-Rio. Pasmem, mas é. As companhias enfiam a faca quando a procura é grande. Conheço pessoas de classe média alta que mantêm o apartamento em Miami até para fins de semana prolongados. Viajam com uma malinha de mão e só. Perguntei a uma amiga qual o motivo de tanta paixão.
– Dá para andar na rua sossegada.
Simples assim. A classe média alta e os ricos de verdade fogem do país pelo prazer de andar na rua sem medo. E têm razão em muitos aspectos. Em São Paulo, confesso: tenho medo de andar na rua. Todos os meus amigos já perderam pelo menos um celular em assalto. Levaram surras. No Rio de Janeiro, tomar um sorvete pode ser risco de vida. Exagero? Certa época, tive um apartamento alugado no Arpoador. É um dos lugares mais lindos do Rio. Mas quanto arrastão! Dava para ver da janela a correria, a gritaria. Outro dia, um amigo correu para dentro de uma loja, que trancou as portas, enquanto o povo lá fora era assaltado em massa. Diante dessas aventuras, caminhar sossegadamente na rua é tão atraente quanto passear na Disney.
Por toda a Europa há brasileiros. Alguns saem em busca de trabalho, simplesmente. Como dois jovens atores que foram lavar pratos na França. Ilegais. Escondem-se para não ser pegos pela imigração. Claro, nem pensam em atuar.
– Estava cheio de fazer cachorro ou urso em peça infantil e, ainda por cima, viver na pindaíba – explicou um deles. – Pelo menos, aqui, quem trabalha ganha.
De fato. Boa parte dos atores vive de eventos. Ou seja: são garçons e recepcionistas em lançamentos comerciais ou festas chiques. Garçom por garçom, melhor sê-lo na França.
Em Portugal, nem se fala. Com a facilidade da língua, brasileiros vão em revoadas. Para os de maior poder aquisitivo, uma vantagem: quem adquirir um ou mais imóveis no valor de e 500 mil tem direito ao Golden Visa. Simplificando: pode residir no país. A Espanha tem lei parecida. Mas Lisboa vive uma grande fase, com a cidade em alta no mundo todo. Há excelentes restaurantes, lojas de grife, uma noite animada. O clima é bom. Muitos brasileiros vão como estudantes, fazem graduação e mestrado. Vão ficando. Outros já partem para empregos mais simples: diaristas, garçons. Os da classe média para cima aproveitam para viajar por toda a Europa. Em uma hora, chegam à Espanha. O motivo da mudança? Tranquilidade.
– Não suportei mais o jeito que Salvador foi ficando, a violência – contou-me um rapaz que estuda arquitetura.
Os depoimentos, na maioria, são idênticos. Sinto isso na pele. Sempre adorei andar nas ruas. O prazer de uma caminhada é insubstituível. Acabo de passar por Lisboa. Apesar das colinas, subidas e descidas, do vento às vezes, há coisa melhor que andar em paz? Pegar um táxi e saber que ele fará o caminho exato, sem truques? Ir a um restaurante com hora marcada e ser bem tratado? (Outra coisa que não entendo: restaurante nacional não gosta de marcar hora e deixa a clientela esperando na fila.) Resultado: como bem, bebo vinho e me esbaldo nos doces portugueses. Não engordo, porque vai tudo embora na caminhada. Mas, é claro, moro no Brasil e não pretendo sair do meu país. Seria incapaz de escrever uma novela sem sentir o público, a emoção nas ruas.
Só que a questão da segurança se tornou realmente chata. Cada dia a gente ouve uma história pior, e não há mudança à vista. São assaltos no skate e no carro conversível. (Aliás, quem tem coragem de ter?) O resultado da violência, somada à falta de empregos, é essa nova onda migratória. O Brasil está perdendo seus cidadãos por pavor. É a migração motivada pelo simples medo de continuar dentro do país.

(*) Walcyr Carrasco é jornalista, autor de livros, peças teatrais e novelas de televisão.

Nenhum comentário: