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segunda-feira, 6 de março de 2017

TEXTO DO BLOG

A DOR DA TRAIÇÃO
por Alberto Lima*

"Um parceiro amoroso sabe quando o outro não está presente e isso independe de tê-lo fisicamente ao seu lado. O que ele percebe é uma paradoxal forma de ausência: o corpo comparece; a alma, não. A partir dessa constatação é comum que se repita uma sequência de fatos que desemboca em muito sofrimento e em uma terrível quebra da confiança em si mesmo. É praticamente impossível precaver-se de uma situação como essa, mas aqueles que se conhecem bem podem minimizar os seus efeitos.
Em geral, num primeiro momento, aquele que se sente abandonado teme explicitar a situação porque acha que isso pode levar embora de vez o ser amado. Com o passar do tempo, a certeza de que a qualidade do contato se esvai faz com que ele resolva se abrir. Seu pedido oculto é: "Diga-me que você não foi embora! Prove que meus olhos falham e que meu coração se engana." O abandonado é o primeiro a revelar a situação porque sabe que o poder está nas mãos do abandonador, do qual se sente refém. A esperança de ser capaz de sair do tenebroso cativeiro é que o leva a jogar luz sobre o que se passa. Ao medo de perder seu amor se sobrepõe o medo de sucumbir à exclusão, essa espécie de "morte".
O abandonador, por sua vez, sabe que tem as rédeas. Acusado de abandono, nega. Como pode ser ausente alguém que, afinal, "está lá"? Ele também se sente dividido, mas procura preservar a história "oficial". O abandonado silencia por um período. Mas o tempo o castiga com a renovação de seus temores e ele insiste em chamar o parceiro ao contato.
A negação persiste, não raro acompanha de requintes como a inversão da situação e tentativas de minar a autoconfiança do parceiro. Este, então, vai buscar outras maneiras de aferir suas intuições: invade a caixa postal do celular e os e-mails do parceiro, faz vistoria na carteira e no extrato do cartão de crédito. Por fim, como se pode prever, identifica onde e com quem se encontra a alma dele. Sente-se mal por ter atravessado barreira éticas, mas justifica seus atos como tentativas de salvaguardar o senso de saúde e integridade. Pensa assim: "Se ele não é ético comigo, então que se detone a ética entre nós e se instale a perversão: ao poder do sonegador, responderá o 'legítimo' poder do aviltado."
O próximo passo consiste em o abandonado submeter o abandonador às evidências da traição. É possível que tente humilhá-lo para causar nele a mesma dor de que foi vítima. Porém, à pessoas assim, esquivas a humilhação não faz nem cócegas. O feitiço, então, acaba por voltar-se contra o feiticeiro: o abandonado se sente responsável pela traição e se tortura por isso. O abandonador sai ileso e ele, aos frangalhos.
O caráter "nelson-rodrigueano" desse drama revela o quanto as pessoas envolvidas são marionetes nas mãos de seus próprios inconscientes. O autoconhecimento é o único antídoto capaz de proteger os envolvidos numa história assim. Permitirá àquele que trai que assuma seus atos e tenha coragem de encarar - e propor - o fim do relacionamento, e a vítima da traição que não se sinta culpada pelo próprio sofrimento e que preserve a confiança em si mesma. O conhecimento do outro, principalmente em seus aspectos ocultos e sombrios, também é importante. Ainda que doa, a decepção traz como benefício o descortinar dessas facetas."

(*) Alberto Lima, psicoterapeuta de orientação junguiana, é professor-doutor em Psicologia Clínica e autor de O Pai e a Psique (Editora Paulus) e de Alma: Gênero e Grau (Editora Devir).

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