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quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

TEXTO DO BLOG

DOS MUROS
por Luis Fernando Veríssimo*

Os Muros de Jericó, nos conta a Bíblia, caíram depois de um sítio de sete dias. Os israelitas, após a fuga do Egito e os 40 anos no deserto, invadiram a cidade do Vale do Rio Jordão, desprotegida com a queda da sua fortificação.
Os Muros de Jericó ficaram na história bíblica como um exemplo do poder da fé, pois foram as preces e as encantações dos sitiantes, além das cornetas, que os destruíram. Ou seja, os Muros de Jericó foram derrubados, literalmente, no grito.
Não há paralelo possível entre os Muros de Jericó e outros muros famosos, como o Muro de Berlim. No caso deste, o governo comunista da Alemanha Oriental justificava a existência da excrescência como uma maneira de segurar cidadãos para os quais o Estado assegurava educação e saúde, mas que não resistiam ao apelo do outro lado, ainda mais que Berlim Oriental era um lugar lúgubre e Berlim Ocidental uma vitrine para o que o capitalismo tem de mais chamativo.
Onde é que entra a comparação com os Muros de Jericó?
O Muro de Berlim também caiu no grito. Não resistiu ao clamor internacional pela sua destruição. E, certamente, a algumas preces também.
A Grande Muralha da China foi construída para proteger o Império Chinês de incursões de tribos inimigas. Sua construção começou há dois mil anos, e não se sabe se um dia cumpriu seu objetivo militar ou apenas sua função como limite do insular Império do Meio, um símbolo do seu distanciamento do resto do mundo.
A Grande Muralha da China não foi destruída. Pior, virou atração turística.
Israel, esquecendo-se de Jericó, construiu um muro para separá-lo de territórios palestinos e também está sendo muito criticado por isso, embora não se espere que ceda ao clamor crescente tão cedo.
E temos o muro proposto por Trump para impedir a entrada de mexicanos e centro-americanos nos Estados Unidos.
O mais importante do muro do Trump não é o muro, é o clamor contra o muro. Que talvez não impeça a sua criação, mas pode levar a uma revolta — junto com as outras barbaridades propostas por Trump — que o faça repensar tudo, inclusive seu penteado.
As cornetas já começaram.

(*) Luis Fernando Veríssimo é escritor

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