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quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

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ABRIGOS
por Luis Fernando Veríssimo*

Cursei uma high school em Washington onde, regularmente, tínhamos ensaios para o caso de ataque nuclear. Íamos todos para o porão da escola, onde ficávamos até passar o perigo imaginário.
Ninguém acreditava que o porão da escola fosse nos proteger dos mísseis russos, quando viesse um ataque de verdade.
E acho que muitos dos meus colegas devem ter pensado, como eu, no que nos esperaria lá fora se sobrevivêssemos a um ataque real. Washington arrasada, a radiação envenenando tudo, nossas casas e nossas famílias reduzidas a cinzas.
De nada adiantaria voltar correndo para o porão da escola. Estávamos liquidados de qualquer maneira.
Isso foi nos anos 50, no auge da Guerra Fria, quando Estados Unidos e União Soviética mantinham seus respectivos foguetes apontados um para o outro, só esperando que um ou o outro apertasse o botão fatídico.
Muita gente nos Estados Unidos construiu um abrigo antiatômico no seu jardim, e uma questão ética tomou conta do país: o dono de um abrigo antiatômico estaria justificado ou não ao rejeitar no seu abrigo a família do vizinho imprevidente que não construíra o seu?
Li numa “New Yorker” recente que americanos milionários estão construindo não abrigos, mas comunidades de segurança inteiras, estocadas e aparelhadas para resistir à tempestade de cocô, que, ninguém duvida, vem aí.
A ameaça não é mais mísseis nucleares — se bem que armas nucleares nas mãos de norte-coreanos sem nenhum pudor aparente de apertar o botão também preocupam — mas convulsões sociais na América e na Europa, que os survivalists (sobrevivencialistas?) consideram inevitáveis, além dos efeitos de terremotos, aquecimento global e outros cataclismos naturais.
Estamos de volta ao porão da minha high school em Washington e nos terrores da Guerra Fria, com algumas diferenças.
O porão agora está equipado para resistir a sítios prolongados, e a questão ética — deixar ou não o vizinho entrar — não existe mais: só entra milionário.
A matéria da “New Yorker” diz que é grande o número de milionários americanos comprando terras na Nova Zelândia, supostamente o lugar ideal para fugir da tempestade.
Sobreviver ou não ao fim do mundo depende do seu saldo bancário.

(*) Luis Fernando Veríssimo é escritor

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