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segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

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VERDADE & MENTIRA
por Nahman Armony*                                                              

Uma longa tradição dicotômica que teve seus expoentes em Platão e Descartes nos acostumou a enxergar o mundo através de extremos. Bom-mau; justo-injusto; saúde-doença, etc. Atualmente estes extremos têm se suavizado propiciando a percepção de uma zona intermediária, o que provoca dificuldades éticas. Trataremos aqui da dicotomia verdade-mentira. Começarei por uma situação simples: vemos seguidamente na vida e na ficção alguém dizendo para uma pessoa prestes a morrer, ou acometida de um mal incurável a mentira do “está tudo bem”, “tudo vai dar certo”. Trata-se de uma mentira? Ou é uma questão de foco? Esta pergunta é pertinente, pois o conhecimento bruto e súbito da realidade poderá fazer a pessoa sentir-se ainda pior e provocar ainda mais sofrimento.
Quando o psiquiatra lida com pacientes psicóticos deverá tomar extremo cuidado em não tocar em assuntos para os quais exista uma susceptibilidade exagerada levando a reações de ansiedade, agressividade, pânico, confusão mental, etc. Diante de delírios esquizofrênicos não se deve contrapô-los à realidade para não despertar reações excessivas. O psiquiatra ou o analista deve permanecer silencioso o que certamente criará uma situação ambígua na qual o paciente poderá vir a ter a certeza de que o interlocutor concorda com ele. Uma ambigüidade cuja função ética é evitar situações críticas de descontrole.
Todos nós temos zonas de hiper-susceptibilidade. Num relacionamento de casal se uma dessas áreas é revelada pelas palavras do companheiro, a isto pode se seguir uma crise de conseqüências funestas, seja no âmbito pessoal com prejuízos corporais e psíquicos, seja no âmbito do relacionamento de casal quando a pessoa ofendida em sua auto-estima e ameaçada em seu equilíbrio psíquico fecha definitivamente a porta da relação. Nestes casos caberia a omissão, a concordância ambígua e a distorção tranqüilizadora. Por exemplo: uma pessoa que tenha grande dificuldade com dinheiro e que se a reconhecesse ficaria psiquicamente desequilibrada por considerar a usura uma baixaria da pior espécie, não poderia ouvir do companheiro nenhuma alusão a esta característica; criar-se-ia um mal-entendido, uma idéia deliróide que a faria reagir com fúria, com depressão, com confusão, com extrema ansiedade. Se rola aquilo que em vários artigos meus chamei de “paixão visceral”, uma paixão que não admite outra coisa senão a continuidade da intimidade amorosa, aceitando então lidar com os aspectos imaturos do amado, aquele assunto (a usura) não pode ser tocado. Por algum tempo ele deverá ser evitado até que o progresso da relação permita que ele seja tangenciado e por fim, eventualmente, um dia possa-se falar abertamente dele. Para conservar a integridade e força da relação e o relacionamento ele próprio é necessário lançar mão da omissão, da ambigüidade, da tergiversação. Pode-se dizer que aqui a ética não é a da verdade, mas da preservação de uma relação amorosa que aceita as partes imaturas (psicóticas) do outro. É claro que existe a esperança de que a verdade do amor, gerando um comportamento sensível e adaptado às situações, acabe por promover um amadurecimento dos aspectos dissociados, possibilitando sua saída das trevas e tornando viável uma relação mais transparente. 

(*) Nahman Armony, médico psicanalista, é membro da Sociedade de Psicanálise Iracy Doyle (Spid), do Círculo Psicanalítico do Rio de Janeiro e da Federação Internacional das Sociedades Psicanalíticas. Publicou, entre outros livros, Borderline: Uma Outra Normalidade. E-mail: nahman@uol.com.br

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