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quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

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COXINHAS
por Luis Fernando Veríssimo*

O ex-chefe da Secretaria Nacional da Juventude, exonerado do cargo porque lamentou que não houvesse mais chacinas nas prisões, prefaciou sua declaração dizendo que, nesse assunto, era “coxinha”.
Me surpreendi. Sempre achei que “coxinha” fosse o bem-humorado apelido dado às pessoas, na sua maioria de classe alta ou média, que se manifestaram pelo impeachment da Dilma em particular e contra o PT em geral. “Coxinha” era o oposto de petista.
Se eu fosse construir a imagem de um típico “coxinha”, seria um jovem não necessariamente rico, mas bem de vida, com um sincero horror do PT e simpatizantes, convencido de estar defendendo a democracia, além dos seus privilégios.
Jamais imaginaria o bom moço aprovando a guerra de facções e suas terríveis consequências dentro das prisões, para resolver o problema das superlotações. Mas o ex-secretario da Juventude, aparentemente, tem outra definição para “coxinha”. Confessou-se um “coxinha” para justificar uma opinião que só poderia ser de um “coxinha”.
Quantas pessoas se descobririam “coxinhas”, no mau sentido, se precisassem se definir sobre o assunto?
O pensamento nazista é tentador. As experiências de eugenia feitas pelos nazistas para purificação da raça são precursoras do que se faz hoje em matéria de engenharia genética. Com uma diferença: os nazistas faziam suas experiências em crianças, sem anestesia.
A eugenia é um bom exemplo, ou um péssimo exemplo, do que ocorre no Brasil, há séculos.
Há por trás do tratamento dado aqui ao negro, ao pardo e ao pobre, cuja amostra mais evidente é esse sistema carcerário ultrajante, um mal disfarçado intuito de purificação. Empilhar criminosos, independentemente do caráter do crime, em cadeias infectas e esperar que eles se entredevorem é um método prático de depuração. Os campos de extermínio nazista — abstraindo-se a questão moral — eram exemplos de praticidade.
A longa história de descaso das autoridades brasileiras pelo escândalo das cadeias é a abstração moral em pessoa.
Abstraindo-se a questão moral, a receita “coxinha”, no mau sentido, para o problema faz bom sentido. As facções se aniquilam mutuamente, os bandidos sofrem o que merecem — sem anestesia —, e a nação agradece.

(*) Luis Fernando Veríssimo é escritor

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