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sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

TEXTO DO BLOG

MOMENTOS DE GRANDEZA
por Gaudêncio Torquato*

A política é, por excelência, o terreno de disputa, guerra, luta pelo poder. Adicionem-se superlativos a essas definições quando a arena dos litígios é banhada pelo sangue de conflitos originados no embate entre duas posições, dois exércitos, sendo o vitorioso questionado a respeito do triunfo obtido com o apoio de imensa parcela da população do território devastado por uma das mais profundas crises de sua história. A esta altura, a ficha já deve ter caído na cachola dos leitores deste preâmbulo.
Estamos tratando, sim, da imagem do Brasil. O país começa a convalescer dos episódios que culminaram com o afastamento da presidente Dilma Rousseff e a substituição pelo vice Michel Temer. A animosidade continua, mas diminuindo na esteira dos dados que mostram a gradual e lenta recuperação da confiança dos setores produtivos. Nessa última quinta-feira, beirando à meia noite, observamos o desenrolar de uma cena, que se pensava inimaginável, se a inserimos no contexto das feridas abertas no corpo de nossa política partidária: conversas cordiais entre o maior ícone das oposições no Brasil, Lula, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso e o atual presidente Michel Temer.
INTEGRAÇÃO DE PROPÓSITOS
Diante do abalado líder que acabara de perder sua companheira por quatro décadas, Marisa Letícia, os próceres do PSDB (primeiro FHC) e do PMDB (depois Michel Temer) foram expressar a ele seus sentimentos e sua solidariedade. Desfazia-se ali, naquele triste ambiente do hospital sírio-libanês, o muro que teima separar o Brasil em duas bandas.
É verdade que a aguerrida militância petista continua a trombetear palavras de ordem contra o atual governante do país – como se viu em sua chegada ao hospital - , mas o ex-presidente Luis Inácio foi pródigo em agradecimentos, puxando ele mesmo a lição de que há momentos na vida em que as visões partidárias, mesmo sob o fogo das emoções, deve ceder lugar ao diálogo entre líderes, todas as vezes que isso se fizer necessário.
A comitiva levada por Michel Temer ouviu de Lula uma lição de grandeza. Primeiro, o reconhecimento de que diante do sofrimento pessoal, as barreiras partidárias e as convicções ideológicas devem ceder lugar aos valores do ser humano. Ao registrar o ato de humanidade que unia os contrários por meio do cordão da solidariedade, Lula se dispôs a expressar sua visão de país, confessando imensa preocupação com a fraqueza das instituições nacionais. Não estariam valendo quase nada.
Foi uma dura observação, compreensível ante o crucial momento vivido por atores políticos de todos os espectros, ele mesmo incluído. Estaria havendo mesmo um processo de acovardamento por parte de uma ou outra instituição? O que move o Supremo Tribunal Federal? O que está por trás das ações do MP? As instituições deixaram de cumprir seu papel? O Legislativo não estaria se deixando levar pelo Judiciário?
Não foi preciso expressar tais perguntas, mas elas ficaram na cabeça dos ouvintes. O momento é grave. E carece de uma interlocução estreita entre os principais atores do palco político. A propósito, lembrou o momento em que os ex-presidentes da República (José Sarney, ele mesmo, Fernando Henrique Cardoso e Fernando Collor) acompanharam a presidente Dilma à África do Sul, quando compareceram ao velório de Nelson Mandela. A oportunidade foi bem aproveitada para uma troca de impressões.
INTERLOCUÇÃO NECESSÁRIA
Pondo-se à disposição para conversar todas as vezes em que for chamado – afinal, seria inconveniente se oferecer como interlocutor – Lula mostrou-se sinceramente preocupado com a situação nacional, exemplificando com a extrema dificuldade de se fazer uma reforma da previdência nesse momento de refluxo da economia. Ponderação é o que parece sugerir. O fato é que o abalado ex-presidente demonstrou inequívoca vontade de contribuir com ideias para a melhoria das condições do país.
A interlocução, mesmo desenvolvida sob clima de emoção e concentrada atenção às palavras da maior liderança oposicionista, deixa transparecer o apartheid que divide as posições do quadro partidário e torna agudas as relações entre os protagonistas centrais da política. A interrogação que toma corpo é: seria inviável o convívio democrático entre as forças motrizes de nosso quadro partidário?
Em um momento particularmente tormentoso como o que estamos atravessando, não seria aconselhável a tentativa de um debate suprapartidário, inspirado no ideal do bem-comum e voltado para a integração de propósitos? Ou uma relação menos conflituosa só será possível em instantes dramáticos e sofridos na vida das estrelas de nossa constelação política?
A polidez é uma virtude inerente aos homens bem educados. É o valor que se contraria à grosseria, à selvageria, ao lema hobbesiano “o homem é o lobo do homem”. As boas maneiras também devem integrar o dicionário da política. Afinal, trata-se de uma ética de comportamento, um código de bem conduta da vida social, a endossar a retidão de caráter.
Trata-se de uma espécie de partilha, de congraçamento, de generosidade de uns para com outros. Não deixa também de ser um valor que se aproxima da humildade, a virtude do homem que sabe não ser Deus, para empregar as palavras de André Comte-Sponville. Lembra, ainda, a simplicidade, o despojamento, a sinceridade, a caridade. É ilusório pensar na polidez como um costume da política?
Infelizmente, estamos ainda padecendo os efeitos da incontida raiva produzida pelos laboratórios da militância partidária. A divisão do Brasil em duas bandas – nós e eles – deu origem à animosidade que continua a se fazer presente nas ruas, nas ante-salas dos Poderes e nos corredores poloneses em que são afrontados, apupados e execrados aqueles que não concordam com ideologias radicais. Urge encerrar o ciclo da cólera partidária.
Que os raros instantes de solidariedade suprapartidária provocados pela comoção no adeus à companheira do nosso último líder carismático sirvam para resgatar o sentimento de Pátria unida, Pátria convivial, Pátria dos anelos coletivos, comunhão de todas as nossas esperanças.

(*) Gaudêncio Torquato é jornalista, professor titular da USP, consultor político e de comunicação Twitter @gaudtorquato

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