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segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

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FILMES PORNÔS ENSINAM PREVENÇÃO?
por Jairo Bouer*

Os Estados Unidos vivem uma discussão inusitada no campo da prevenção contra o vírus HIV, o causador da aids. Nas últimas eleições americanas, em novembro, os eleitores da Califórnia foram convidados a fazer outra escolha, ao mesmo tempo que votavam para presidente. Os atores de filmes pornográficos produzidos no estado deveriam ser obrigados a usar preservativo? Los Angeles, a maior cidade da Califórnia, já tem uma lei que exige o uso de camisinha nas produções de sexo explícito. A ideia da votação era estender essa medida a todo o estado, mas a intenção não foi acatada pelos eleitores: 54% rejeitaram a medida. Os defensores afirmam que a medida protegeria os atores do risco de exposição de doenças sexualmente transmissíveis (DST). Algumas pesquisas apontam que até 25% deles enfrentam alguma infecção transmitida pelo sexo. Em tese, a medida também diminuiria a exposição da população a cenas de sexo sem proteção, o que poderia contribuir para o maior uso de camisinha.
A eficácia da proposta era controversa. A maior parte dos atores já faz avaliações periódicas de saúde e testes regulares para detecção de DST (inclusive HIV). Também existe uma droga antiviral profilática, Truvada, que evita o risco de contrair HIV. Ela poderia ser usada pelos atores. Do ponto de vista da saúde da população, é pouco provável que ver os atores usando preservativo influencie o comportamento sexual. Não se pode culpar a indústria pornô pelo baixo índice de uso regular de camisinha registrado atualmente entre os jovens.
Quem trabalha com prevenção sabe que deve se preocupar com muitas outras questões antes de pensar se o ator pornô usa ou não camisinha. Para ficar no campo dos filmes, aposto que, se um dos atores famosos de Hollywood (também na Califórnia) tirasse uma embalagem de camisinha do bolso e simulasse a colocação antes do momento íntimo com a protagonista de algum dos filmes blockbusters, o efeito protetor na população seria bem maior.
Receber educação para a vida amorosa, emocional e sexual na escola seria o melhor caminho para discutir uso de camisinha e proteção. O diálogo com a família em casa sobre sexo e prevenção e uma maior facilidade de acesso aos preservativos (distribuídos gratuitamente, por exemplo, em postos de saúde) também fariam toda a diferença. Muito mais que saber e ver se os atores estão usando ou não camisinha, é preciso fazer a população exercer sua autonomia com cuidado e responsabilidade. Mudar hábitos e costumes tem de começar na educação.

(*) Jairo Bouer é médico formado pela USP, com residência em psiquiatria. Trabalha com comunicação e saúde. jbouer@edglobo.com.br

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