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segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

TEXTO DO BLOG

PRESSÃO X EXPRESSÃO
 por Nahman Armony*

O convívio humano é complicado. E mais complicada ainda a convivência de casais. Especialmente em períodos de transição como o nosso. De uma época de individualismo em que cada um tinha o seu papel definido, caminhamos, se é que já não lá chegamos, para um tempo de igualdade e confronto de casais. A mulher já não aceita se submeter às determinações do homem. Testemunha inconformada de uma época de submissão feminina, hipersensibilizada pela antiga configuração familiar vivida pela mãe, facilmente sente-se tratada pelo homem como um ser inferior. É uma situação que dificulta o diálogo, pois as colocações que se pretenderiam expositivas, são vivenciadas como impositivas provocando reações exageradas e levando a relação para um terreno emocional exacerbado provocando desde discussões verbais destemperadas até agressões orais e físicas. Porém não devemos esquecer que ainda carregamos conosco resquícios de uma subjetividade que ainda está em processo de se tornar passado. Por isso mesmo, poderá haver no homem uma nota eclipsada de autoritarismo e na mulher uma oculta identificação com a mulher submissa do passado, tornando a situação muito sensível à mínima e inconsciente expressão de autoritarismo e submissão.
É ainda esta constelação que herdamos de um passado recente que influi em outro aspecto da relação de casal. Mesmo na posição submissa a mulher exercia um poder, maior ou menor, dependendo da dinâmica do casal; um poder que se exercia silenciosamente, sutilmente, refratário à verbalização e que mesmo colocado em palavras mal resistia a uma argumentação racional. Esse poder se exercia nos pontos vulneráveis no homem. Um dos mais comuns era sua mobilização diante da doença feminina, respeitada quase como um tabu. Por mais objetivo que o homem fosse, e por mais que ele encarasse as queixas femininas como frívolas, diante de uma doença ele se mobilizava possibilitando à mulher podia exercer um poder. Mas havia outras formas de exercício de poder. A recusa ao sexo mediante pretextos (dos quais o mais conhecido é a dor de cabeça), a negação de um apoio afetivo consistente, e outras. Mas, diríamos, este tempo passou. Hoje em dia as relações homem-mulher são igualitárias, os direitos são equivalentes e, ao invés de domínio e imposição temos entendimento, respeito e acordo a satisfazer os interessados, de tal forma que eles possam conviver com as diferenças. Mas, será tão diferente assim? A vontade de fazer prevalecer os próprios pontos de vista e desejos é um dos impulsos dos seres humanos. A isso se acresce a recente herança advinda das relações verticais que obrigava o lado submetido a agir sub-repticiamente. O que muitas vezes parece e poderia ser uma ponderação sobre as diferenças individuais para se chegar a um acordo descamba com facilidade para uma tentativa de manipulação do outro. Um tom de voz impositivo, ameaças veladas, reiteradas repetições, sutis culpabilizações, um persistente tom queixoso de vitimização, todas estas são formas conscientes ou inconscientes de pressionar o parceiro para além de seu desejo e ajuizamento, provocando mal-estar e conflito. Existe aqui uma dificuldade e complicação. Sem dúvida certos comportamentos seriam classificados como comportamentos de pressão. Já outros, porém, não apresentam essa clareza. Dependerão da susceptibilidade de quem ouve, do significado que as comunicações adquiriram ao longo da convivência. Expressão ou pressão? O parceiro está apenas expressando seus desejos e pontos de vista ou o está pressionando? Às vezes a pressão é evidente. Outras vezes ela é sutil, quase indiscernível e, finalmente há situações em que a pressão depende de um estado de receptividade. Estamos em um terreno pantanoso, fluido, repleto de idas e vindas e de variações infinitesimais. Importante que os casais percebam a complexidade das situações relacionais para não se deixarem levar ingenuamente pela sensação de manipulação e controle nem ingenuamente esconder de si próprios a possibilidade de isto estar acontecendo.

(*) Nahman Armony, médico psicanalista, é membro da Sociedade de Psicanálise Iracy Doyle (Spid), do Círculo Psicanalítico do Rio de Janeiro e da Federação Internacional das Sociedades Psicanalíticas. Publicou, entre outros livros, Borderline: Uma Outra Normalidade. E-mail: nahman@uol.com.br

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