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segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

TEXTO DO BLOG

DOS BEIJOS EU ME LEMBRO
O sentimento visceral de um beijo, a intimidade instantânea a que ele nos arremete, não tem equivalente em coisa alguma
por Ivan Martins*

Lembro como se fosse ontem: por uma insondável razão feminina, que talvez tivesse a ver com a época do mês ou a cor da calcinha, ela decidiu que não iríamos transar. Tirou a camiseta amarela, tirou o sutiã e as sandálias, e se deitou na cama apenas com um jeans justinho, puído nos joelhos.
Nas horas que se seguiram, enquanto explorávamos possibilidades e limites da situação, oscilei entre o prazer vertiginoso, a mais arrebatada ternura e momentos de verdadeiro desespero físico. Hoje, muito tempo depois, lembro apenas do prazer e da ternura, como se fosse ontem.
O que mais fizemos naquela tarde foi beijar. Apaixonadamente. Interminavelmente. Todo sentimento do mundo cabia naqueles beijos, e quase todo o desejo. Ela se sentou nas minhas pernas, com as pernas enlaçadas na minha cintura, e o tempo parou. Ainda posso sentir a maciez dos lábios dela, as suas mãos na minha nuca e as minhas mãos, sem pressa, despenteando os seus cabelos pretos e cheirosos.
Este ano está acabando, como outros anos se acabaram, mas essa lembrança antiga não se gasta. Está lá, cintilante, e vai continuar comigo em 2017, dando prova de que os beijos são, de alguma forma, imperecíveis. E que são, de forma muito clara, insubstituíveis. A gente vai ficando adulto, tudo muda, mas o sentimento visceral de um beijo, a intimidade instantânea a que ele nos arremete, não tem equivalente em coisa alguma.
Nem no sexo.
Lembro de um jantar, na varanda de um restaurante paulistano, em que a moça se debruçou sobre a mesa e me beijou, interrompendo uma frase no meio. Lembro de outro jantar, a mesa colada à parede, em que eu fiz exatamente o mesmo, diante de um sorriso que me hipnotizava. Esqueci de muitas coisas desde então, mas desses beijos me lembro, perfeitamente, com uma espécie de carinho irremovível, fonte de delicado erotismo.
Se eu pudesse pedir algo ao ano que inicia, pediria a felicidade múltipla dos beijos. Que tanto eu quanto os demais habitantes deste planeta terrível achássemos nas ruas e nas praias, no interior das nossas vidas, um afeto inesperado (ou longamente antecipado), que tomasse a forma de um beijo de amolecer os joelhos - e que esse beijo transcendente invadisse a existência feito uma onda, arrastando medos e hesitações, empurrando portas e derrubando as cercas. Um beijo libertador.
Quando eu era garoto – lembro direitinho – os beijos eram imensamente antecipados, mas tensos e difíceis. Ninguém sabia exatamente o que fazer com a língua, onde colocar as mãos, como posicionar os braços e os quadris. Não dominávamos a coreografia do beijo. Havia muita ansiedade naquelas bocas que se tocavam pela primeira vez com gosto de batom e de chiclete, às vezes de cigarro. Eram os anos 1970. 
O tempo mudou tudo desde então, para melhor. Os beijos foram se tornando mais seguro e menos apressados, como nós mesmos. Passaram a se prolongar durante o sexo, ávidos e molhados, sufocando sons e palavras de prazer, até o derradeiro final. Beijos adultos, hoje eu sei, são melhores e mais prazerosos do que os beijos juvenis – e também fazem nosso coração tremer.
Alguém já disse que o beijo faz com que as pessoas se sintam jovens. Eu acredito. Beijar é um prazer ligado a memórias profundas. É inevitável que o beijo de agora nos carregue de volta a outros beijos, a outras bocas, outras pessoas e emoções. Beijar é entregar-se não apenas ao outro, mas a si mesmo, às lembranças corporais que nos fazem quem somos.
É injusto ter de escolher entre os beijos e o sexo que vem depois. Beijo e sexo formam parte de um corpo erótico único, evento físico e emocional que começa na delicadeza dos lábios que se tocam e termina na rispidez suarenta e trágica do gozo.
Mas, se eu tivesse de escolher, acho que ficaria com o beijo. Aprendi naquela cama, com a garota que vestia apenas jeans, que beijos podem nos levar quase tão longe quanto queiramos ir, enquanto sem beijo, francamente, não se vai a lugar nenhum. Se não houver fome e calor nos beijos, o resto nem deveria acontecer.

(*) Ivan Martins é editor-executivo da revista Época, autor do livro Alguém especial e escreve em epoca.com.br

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