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quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

TEXTO DO BLOG

REFLEXÕES
 
por Luis Fernando Verissimo*

Nós mesmos nos duplicamos no espelho. Somos o nosso avesso, um outro que mal conhecemos
Jorge Luis Borges era obcecado por labirintos e, principalmente, espelhos. Há espelhos espalhados por toda a sua obra, como no poema que diz:
“O cristal nos espreita
Se entre as quatro paredes do aposento há um espelho
Não estou só.
Há outro. Há o reflexo”.
O “outro” refletido no espelho, o reflexo de quem olha, é sempre motivo de especulação (do latim speculu, de onde vem “espelho”) e um mistério a ser decifrado.
Para Borges, o espelho e a paternidade se parecem, são dois culpados pela multiplicação dos seres. Nós mesmos nos duplicamos no espelho. Somos o nosso avesso, um outro que mal conhecemos.
O pintor espanhol Diego Velázquez também foi fascinado por espelhos. Suas obras mais conhecidas são jogos de espelhos que há anos desafiam interpretações.
No quadro “Vênus no espelho”, o único nu pintado por Velázquez, um anjo segura o espelho em que a Vênus, de costas para nós, se olha. Mas um exame mais detalhado revela que ela não está se olhando, está olhando para fora do quadro. Para nós, transformados em voyeurs involuntários no seu toalete. (A Vênus de Velázquez, pintada em 1651, foi o mais celebre nu da pintura espanhola até aparecer a “Maja despida”, do Goya).
Mais famoso do que a Vênus do Velázquez é o seu quadro chamado “As meninas”, que precisa ser estudado com muito cuidado para que seus intricados reflexos cruzados se revelem. Até hoje não se descobriu se o rei Filipe IV e a rainha Maria Ana, que aparecem num quadrado no fundo do quadro, estão posando para o pintor, que também aparece no próprio quadro, ou não.
Para aumentar ainda mais a confusão, não se tem notícia de um retrato de Filipe IV e a mulher feito por Velázquez.
Na história da rainha má que pergunta ao espelho se existe alguém no seu reino mais bonita do que ela, temos uma característica do espelho que ninguém gosta: sua sinceridade.
O espelho reflete o que vê. Não mente, não melhora e não retoca, não importa quem esteja na sua frente, rainha ou plebeu.
Não me lembro se, na história, a rainha, com raiva, quebra o espelho. Pode-se imaginar os estilhaços do espelho espalhados pelo chão, todos refletindo, vingativamente, a rainha má.
Outro conhecido espelho da literatura é o que Alice atravessa, na história de Lewis Carroll.
Aposto que nessa incursão ao outro lado do espelho, Borges, Velázquez e até a rainha má acompanhariam Alice.
No outro lado do espelho, tudo seria ao contrário, inclusive nós. Estaríamos na terra dos opostos, e nos conheceríamos pela primeira vez

(*) Luis Fernando Veríssimo é escritor.

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