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segunda-feira, 7 de novembro de 2016

TEXTO DO BLOG

UM LANCE
por Ivan Martins*

Em meio à barulheira do bar, a moça se debruçou sobre as garrafas da mesa e disse à amiga dela, sentada ao meu lado: “Tive um lance com aquele cara de azul, que sentou no balcão”. Um sorriso gostoso se espalhou no rosto dela. A amiga virou-se para trás, gastou uns segundos observando, depois retornou, animada, para comentar. No momento em que a fofoca delas decolava, me desliguei e puxei papo com o japonês à minha direita. Nem vi o cara de azul.
Mais tarde, em casa, lembrei do sorriso da moça e da palavra lance,que há tempos eu não ouvia nesse contexto. Ela me fez evocar lances felizes que eu mesmo tive, coisas espontâneas e fugazes. No meio desta vida áspera, tudo o que a gente precisa é de um encontro casual e feliz. Mas a história da garota me fez pensar, também, na forma mais duradoura do verbo, pessoas com quem a gente tem um lance, uma conexão, algo meio mágico. Sabe do que eu estou falando?
Houve uma moça, faz tempo, com quem rolava algo assim. Coisa difícil de explicar porque, definitivamente, não éramos do mesmo planeta. Grupo social, ideologia, hábitos. Tudo nos afastava, mas pele e olhos conectavam lindamente. Lembro de um dia em que fomos almoçar com amigos dela, estrangeiros. Em cinco minutos, em vez de sociabilizar, estávamos de mãos dadas, falando baixinho, eu louco de vontade de beijá-la. Ríamos dessa combustão instantânea, em que desejo e carinho pareciam brotar de alguma parte essencial de nós, que não se confundia com aquilo que éramos socialmente. Um lance bom.
Se pudesse escolher, eu gostaria que as minhas relações começassem sempre como um lance e evoluíssem, naturalmente, para se tornar o lance, sem desencontros e tropeços.
Mas a verdade é que não somos tão simples. A gente se encanta por gente que nem nos enxerga. Nos envolvemos com quem está envolvido com outro. Perdemos um tempo enorme tentando resolver pelas palavras – pela racionalidade – aquilo que a vida não oferece pronto: um lance fácil, recíproco, gostoso, que pode (quem sabe?) virar o lance.
Atração natural deveria ser pré-requisito para qualquer envolvimento. Se rola um clima bom, se olhos e mãos se encontram confortavelmente, se o outro sinaliza o que você também deseja, então vai. Caso contrário, fica. Não há nada mais inútil do que tentar seduzir quem não se comove com a gente. Esse tipo de insistência é motivo de dolorosa frustração.
Por isso, eu acho os lances uma coisa pedagógica. Mesmo efêmeros, eles ajudam, com a chama fugaz da sua existência, a separar o real do imaginário. É como se apontassem os nossos sentimentos na direção da alegria, dizendo: “Está vendo? Começa assim! É com este material que as relações se constroem, não com ilusões brotadas na solidão da alma”.
No domingo, assisti na Casa Contemporânea a um recital com poesias do Caio Fernando Abreu, morto em 1996. Ele era cronista e romancista, mas deixou poemas bonitos. Como a sensibilidade dele é próxima da nossa, é fácil enxergar o homem atrás das palavras. E o que se percebe é ausência, dor e desencontro. Um festival de afetos imaginados e perdidos. Falta na poesia do Caio Fernando o que falta nas vidas de muito de nós: um lance feliz, que pode ou não virar o lance.
Temos uma vocação terrível para nos vincular ao que causa dor. Nos apegamos ao que machuca e nos desvencilhamos das coisas leves, como se não tivessem importância. O que há de errado conosco? Talvez estejamos coletivamente deprimidos.
Outro dia, conversando com um amigo, ele mencionou uma das piores características da depressão: a incapacidade de resgatar boas memórias. O deprimido só lembra de coisas tristes. Talvez o nosso caso de depressão seja ainda mais grave, pois temos dificuldade em viver coisas boas. Trocamos o prazer de um lance real pelo vazio de um lance imaginário – ou por alguém que partiu, sem lembrar o nosso nome.
Como não sei premeditar lances felizes, posso apenas torcer para que eles ocorram espontaneamente, e para que tenhamos a sagacidade de reconhecê-los. Numa cidade com 20 milhões de pessoas, como São Paulo, as estatísticas são favoráveis aos encontros. Num planeta com 6 bilhões de habitantes, as chances são grandes de esbarrar num ser que nos encante – e que, ao mesmo tempo, vá com a nossa cara, com o nosso corpo, com a nossa conversa fiada. Alguém que, num lance inesperado, nos abrigue de forma feliz e provisória nos seus braços.

(*) Ivan Martins é editor-executivo da revista Época, autor do livro Alguém especial e escreve em epoca.com.br

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