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segunda-feira, 7 de novembro de 2016

CAUSOS DO BLOG

DOU DEZ
por Geraldo Duarte*

1967. Século passado.
Longevo mestre, filósofo e poeta, primava pelo estoicismo. Poder-se-ia afirmar inflexível seguidor da doutrina de Zenão de Cítio.
Quase septuagenário, aguardava a aposentadoria compulsória ou, expulsória, no risível nominar do serviço público da época.
Lhano no tratar, conservava costumes originários e caracterizadores da gente interiorana. Educado ao estremo, cioso nas obrigações da docência e respeitado pelo alunato. Em suma, exemplar profissional.
Franzino, míope, pequena estatura, rápido no falar e no andar. A avançada idade não parecia influir em seus movimentos. Ademais, mostrava-se alegre, brincalhão mesmo. Sentia-se o preparo de suas aulas, sempre com um exemplo curioso ou hilário. Creio ter sido bom contador de causos.
Fez-se surpresa a brusca mudança comportamental. Principalmente, por muito estranha e contrária aos modos anteriores. Doença, talvez.
Chegava-se aos grupos de alunas. Elogiava as bonitas. Prosava com as cantineiras. Até em classe comentava dotes femininos.
Apaixonou-se, a olhos vistos, por bela jovem da classe.
A garota fingia desconhecer aos assédios. Trocou a carteira da frente por uma no centro. Fugia de sua presença. Ficava entre os colegas quando ele surgia.
Reprovada, no exame final, submeteu-se à fase de recuperação. Dia da verificação. Sozinha e apavorada, ouviu a proposta: “Sente-se em meu colo e dou dez.”.
Alarmou. Saiu do local. Buscou a direção da entidade.
Houve inquérito administrativo e findou com ato de aposentação.
Daí, os comentários jocosos: “O velhinho, além de decrépito, feio e tarado é mentiroso. Dizer que dava dez...”.

(*) Geraldo Duarte é advogado, administrador e dicionarista.

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