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quinta-feira, 6 de outubro de 2016

TEXTO DO BLOG

USURPAÇÃO
por Luis Fernando Veríssimo*

Cervantes levou quase dez anos para escrever a segunda parte de “Dom Quixote”, e escreveu porque uma versão apócrifa da continuação da história, feita por alguém que nunca se soube quem era, foi um sucesso popular. Cervantes se viu forçado a, por assim dizer, resgatar seu personagem do usurpador. Na falsa continuação, Quixote trai a sua amada Dulcineia e acabava seus dias num asilo de loucos.
Charles Dickens viu seu personagem Pickwick transformado por um usurpador no seu oposto. O Pickwick apócrifo visita a França, renuncia à bebida e se casa, coisas que o Pickwick do Dickens jamais faria.
Estes dois exemplos sugerem uma especulação: até que ponto personagens criados por um autor pertencem ao autor ou, postos no mundo, caem em domínio público e pertencem a todo o mundo? Uma criação literária traz implícita a condição de exclusividade dos seus personagens ou, uma vez criados, os personagens passam a ter vida própria, muitas vezes diferente da vida imaginada pelo autor? Quixote e Pickwick podem ter outra vida fora da que foram condenados na página impressa?
Outra especulação é sobre a relação variável do livro com o leitor. Como um texto é compreendido, ou incompreendido, dependendo da época e de quem lê.
No século XVIII, Cervantes foi acusado de fazer a apologia da loucura em “Dom Quixote”, sugerindo que os loucos são mais sensíveis que os sãos.
O livro favorito de Hitler era “O último dos moicanos”. Durante anos se usou o termo “kafkiano” para descrever os horrores e as incongruências da vida moderna, mas Kafka estava escrevendo sobre o peso do passado, de instituições obsoletas resistindo ao moderno.
Com a internet, surgiu um novo tipo de relação entre texto e leitor, e um novo tipo de usurpação.
Textos apócrifos tornaram-se comuns, com assinaturas que, na maior parte das vezes, são inconfiáveis. E não há o que fazer, a não ser relaxar e se resignar.
Sempre conto que fui abordado por uma senhora que declarou não gostar muito do que eu escrevo, mas que tinha adorado um texto meu recente, que lera na internet. O texto não era meu, mas agradeci com um sorriso. Elogio a gente não dispensa.

(*) Luis Fernando Veríssimo é escritor

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