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quinta-feira, 20 de outubro de 2016

TEXTO DO BLOG

RISCOS
por Luis Fernando Verissimo*

Viver é muito perigoso, disse o Guimarães Rosa. A democracia, como a vida, também é ótima, mas tem seus riscos. Nela, todo o poder emana do povo, mas o povo pode errar, ou pode apenas se lixar para as formalidades democráticas e não votar. A maioria do povo inglês votou por deixar a Comunidade Europeia, e foi um voto burro.
Donald Trump não teria chegado aonde chegou como candidato à Presidência dos Estados Unidos se tanta gente não concordasse com seus conceitos e preconceitos. Nas recentes eleições municipais, o povo brasileiro votou, majoritariamente, em ninguém.
Demagogos se aproveitam da desinformação e do desinteresse do povo para vender suas soluções simplistas. Há uma clara tendência para a direita no futuro político da Europa, onde xenofobia e ideias fascistas prosperam, em reação à invasão de refugiados e à impotência da esquerda.
Claro que quem é de esquerda acha que qualquer progressão da direita é prova dos perigos da democracia, e vice-versa. Quem é de esquerda tem alguma dificuldade em aceitar que todo o mundo não seja, já que sua mensagem é de liberdade, igualdade e fraternidade, e quem pode ser contra isto?
A direita chama a mensagem da esquerda de um grande engodo, como prova o fracasso do socialismo em boa parte do mundo. O inegável avanço da direita se dá, na Europa, dentro das regras democráticas. Marine Le Pen chegará ao governo da França pelo voto.
Nos Estados Unidos, se Trump vencer, o que parece cada vez mais improvável, mas pode acontecer, será pelo voto. O grande risco de estar vivo, segundo Guimarães Rosa, é morrer. O grande risco de cultivar a democracia é que ela pode explodir na nossa cara.
Qual é a alternativa para quem desespera da sabedoria do povo?
Os tempos antigos, como o tempo da Grécia de Platão e o da República romana de Cícero, não nos servem de exemplo. Neles, a política era exercida por uma aristocracia, supostamente iluminada, que sabia o que era melhor para o povo e, como um beneficio colateral, o que era melhor para mantê-los no poder.
No Brasil, desde que uma oligarquia de fato, um arremedo de Roma, foi substituída por uma oligarquia disfarçada, esta usa as regras da democracia — e, de vez em quando, um golpezinho — para seu proveito.
Mas não desesperemos. A solução é a politização do povo, que demora, mas virá. Para parafrasear a já batida frase do Churchill, democracia é um péssimo sistema, com exceção de todos os outros. Mesmo com seus riscos.

(*) Luis Fernando Veríssimo é escritor.

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