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quinta-feira, 15 de setembro de 2016

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IN ALEPPO
por Luis Fernando Verissimo*

A leppo, a maior cidade da Síria, tem estado no noticiário internacional como um eixo do carrossel de terror que roda na região, com turcos atacando curdos, tropas sírias e o Estado Islâmico, este atacando os turcos, os curdos e tropas sírias, tropas sírias atacando os turcos, os curdos e o Estado Islâmico, e ninguém se entendendo.
Leitores de Shakespeare se lembrarão de que na peça “Otelo”, depois de matar Desdêmona, o mouro pede para lembrarem que em Aleppo, um dia (“that in Aleppo once”) um ser maligno (ele mesmo) “que amou não sabiamente mas demais”, pegou pelo pescoço o “cão circuncidado” e o golpeou, “assim” — e Otelo se mata.
Vladimir Nabokov, cuja obra é polvilhada de citações de Shakespeare, escancaradas ou sutis, deu o título “That in Aleppo once” a um conto sobre ciúmes e desentendimentos, como a tragédia de Otelo, convencido por Iago que a doce e fiel Desdêmona o trai. Até hoje se discute a motivação de Iago para montar a intriga mortal.
Apenas uma maldade gratuita de um dos piores caráteres de toda a literatura, ciúmes da virtuosa Desdêmona ou — uma especulação moderna — amor homossexual por Otelo? Nabokov se deliciou ao descobrir que Shakespeare, que também era ator, tinha feito o papel do fantasma do pai de Hamlet no palco do teatro Globe.
O papel é pequeno, mas essencial na trama, sem ele e sem seu clamor por vingança, não haveria a peça. E é o fantasma que se despede de Hamlet antes de desaparecer na bruma, dizendo “Adieu, adieu, adieu. Remember me, remember me...” Poderia ser o autor falando pela boca do ator, pedindo para se lembrarem dele.
E Shakespeare não foi esquecido nos 400 anos que nos separam da primeira encenação de “Hamlet”. Volta e meia surge uma adaptação nova de uma peça dele. Grandes escritores se renderam ao seu sortilégio — Nabokov, talvez, mais do que todos. James Joyce dedica um capítulo inteiro do seu “Ulysses” a Shakespeare e o seu legado literário. “Remember me, remember me”.
Em Allepo, há 400 anos, foi a mesma súplica de um triste mouro, que amou não sabiamente, mas demais.

(*) Luis Fernando Verissimo é escritor.

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