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quinta-feira, 11 de agosto de 2016

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JOGOS
por Luis Fernando Verissimo*

Acho que deveria haver Olimpíada infantojuvenil, com modalidades que se perdem quando as pessoas crescem e esquecem. De quatro em quatro anos, teríamos competições, por exemplo, de cuspe à distância. Um esporte que depende da direção do vento e requer um conhecimento apurado de balística, além de uma boa produção de saliva. Importante, também, na modalidade, é a correta postura do cuspidor ao disparar seu projetil, já que um meneio da cabeça pode significar a diferença entre uma cuspida no próprio sapato e uma cuspidela triunfante.
Guerra de travesseiros. Equipes de, digamos, três atletas de cada lado trocariam travesseiradas até que uma equipe desistisse, ou pedisse penico, como se dizia antigamente. Não haveria regras rígidas nas batalhas de travesseiros, valendo tudo, menos usar um para sufocar um adversário.
Bola de gude. Existem várias maneiras de se jogar bola de gude. Como modalidade olímpica, as partidas seriam de simples ou de duplas. Ao contrário dos jogos de rua, que podem ser “à brinca” ou “à vera”, a combinar, na Olimpíada, os jogos seriam sempre à vera.
Abafa. O jogo consiste em abafar uma pilha de figurinhas com a palma da mão. Ganha quem virar mais figurinhas num certo espaço de tempo. Na Olimpíada, os juízes examinariam as mãos dos competidores antes de cada encontro para evitar o uso de cola na palma. Procedimento recomendado principalmente no caso de jogadores russos.
Ioiô. Ganha quem consegue fazer as melhores figuras com o ioiô, inclusive mantê-lo girando sem parar rente ao solo, uma técnica chamada, pelo menos no meu tempo, de “cachorrinho”.
Futebol de rua. Jogam de três a 17 jogadores de cada lado. As goleiras podem ser peças de vestiário, mochilas ou o que estiver à mão, inclusive irmãos menores. A bola pode ser qualquer coisa, mas o Comitê Olímpico exigiria que fosse uma coisa mesmo vagamente esférica, e proibiria o abacaxi. Futebol de rua não tem juiz. Só há falta quando acertam a canela de um adversário, mas convencionou-se que, dos pés à cintura, tudo é canela.
Mamãe posso ir. Os contendores ficariam alinhados, esperando as ordens de um juiz, que, de costas para eles, ditaria quantos passos deveriam dar, e que espécie de passo: formiga, elefante, guarda da rainha etc. O jogador que fosse flagrado em movimento ou dando um passo errado quando o juiz se virasse seria eliminado. Talvez a modalidade mais excitante dos Jogos.

(*) Luis Fernando Verissimo é escritor

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