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segunda-feira, 15 de agosto de 2016

CAUSOS DO BLOG

COMPRAR VICIA
por Geraldo Duarte*

Credite-se ao administrador Marcos Eliano Tavares, professor universitário, confrade na Academia Cearense de Administração e invejável contador de histórias, este causo de Mauriti.
Anos sessenta. Século passado. Na antiga carroçável, ligando sua terra ao Crato, contavam-se mais buracos que em tábua de pirulitos. Mal saia-se de um, caia-se noutro. Somavam cansativas quatro horas o tempo do percurso.
Numa manhã, conhecido produtor do ramo algodoeiro preparava viagem para o Crato em sua camionete. Ali, situava-se a mais próxima agência do Banco do Brasil e mantenedores de transações eram forçados a ela recorrer.
Ao entrar no veículo, chega o pároco da Igreja de N. S. da Conceição, indagando-lhe o destino. Cientificado, pede carona. Solícito, o empresário manifestou satisfação no atender e afirmou da honra pela companhia.
O longevo sacerdote, com surrada bolsa de idas e vindas e não menos desgastado Missal, aboletou-se.
Deram-se à empreitada. Dificilmente e só nos pequenos trajetos, o guiador conseguia usar a terceira marcha. Primeira e segunda faziam-se constantes. Freadas a todo o momento. Poeira fina e barrenta a penetrar nas narinas e tingir roupagem. Falar? O exigível, evitando comer pó de piçarra.
Vez em quando, o padre ao ver o companheiro acender um cigarro, pedia-lhe um. Assim, ocorreu, incessantemente, até findar o maço.
Pouco depois, ao avistar uma bodega, o empreendedor estacionou o carro, disse ao vigário que ia comprar cigarros e se ele, também, desejava fazer o mesmo. Resposta imediata: “Não, obrigado, meu filho! Comprar vicia! E um servo do Senhor não pode ter vício!”.

(*) Geraldo Duarte é advogado, administrador e dicionarista.

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