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terça-feira, 26 de abril de 2016

TEXTO DO BLOG

TRISTEZA INDIGNADA
por Rinaldo Barros*

“Conhece o inimigo, e conhece a ti mesmo” (Sun Tzu, in A arte da guerra)

Hoje, acordei mais triste do que o normal. Com um sentimento difuso, com uma tristeza indignada.
Dada a gravidade excepcional desta crise no Brasil, seria uma bênção que o poder retornasse logo ao povo para escolhermos um governo com legitimidade; para promover reformas e salvar o país do caos.
Constato que a verdade para o PT está tão distante que eles nem sabem mais o que significa isso.
Aliás, tem um livro novo – já nas livrarias – cuja leitura é imperdível para quem quiser compreender melhor a história recente do nosso país, com ênfase no surgimento do PT e do fenômeno Lula.
Falo do livro “Do PT das lutas sociais ao PT do poder”, de José de Souza Martins, Editora Contexto.
Martins lembra que, diferentemente do que muita gente pensa, o PT surgiu no ABC paulista como uma alternativa ao comunismo. Há quem diga que foi ideia do General Golbery do Couto e Silva – 1911 a 1987), um dos principais teóricos da doutrina de segurança nacional.
Explica Martins: “Não que fosse ideologicamente contra os comunistas, mas nunca chegou a ser um partido de esquerda. Tratava-se, do ponto de vista formal, de um partido católico”.
A charada é: se o PT não é de esquerda, por que tende a demonizar tudo o que é divergente como sendo de direita?
Isso vem do dualismo Deus e o diabo, o bem e o mal. Segundo Martins, como aprenderam a pensar a política em termos dicotômicos, os petistas têm, em grande parte, dificuldade para lidar com a diversidade, com a democracia. Para eles, se o PT é de esquerda e a esquerda é o PT, qualquer coisa que difira disso é direita.
É possível entender o PT como uma espécie de seita. Quem não é filiado ou simpatizante do PT é infiel ou inimigo, da elite branca opressora; a ser eliminado.
Martins segue ensinando que “a direita de que falam os petistas é urna invenção. Nós não temos direita e esquerda no Brasil. A maioria da população nem sabe o que é isso. O povo só quer viver, trabalhar e ser feliz.
Embora Lula seja mais aberto a ideias de fora, o partido é totalmente intolerante a qualquer ponto de vista que não seja o dele. Essa é a característica do PT”.
Agora, dá para entender o discurso do “eles” contra “nós”. Discurso da intolerância.
Na verdade, esclarece Martins, existem no mínimo três PTs, e não me refiro às suas facções organizadas internas. Existe o PT operário, que é o do Lula; o PT dos intelectuais, que vem de uma certa crítica ao Partido Comunista; e o PT popular, ligado às pastorais católicas. Este saco de gatos chegou ao governo há treze anos.
É importante também entender porque parte da esquerda embarcou nessa junto com o PT.
Como diria Jorge Castañeda (escritor mexicano), “o maior erro da esquerda foi crer que não seria corrompida (no governo) pelo simples fato de que vinha do povo. E o povo seria – supostamente – honesto.
Ledo engano! E o Lula, dá para entender o mito Lula?
Mais uma vez, Martins nos ensina. Existem dois Lulas. Existe o Lula de extração popular, que tem uma compreensão da realidade do país muito maior do que a da maioria dos outros líderes políticos. E existe o Lula do poder. Este último se utiliza dessa linguagem polarizada, dicotômica (pode ir ao dicionário). Para Lula, a política é uma performance, como se fora um teatro.
Por sua vez, Francisco de Oliveira (professor da USP e fundador do PT), ao sair do PT, tornou pública sua experiência com a opinião de que o Lula seria “sem caráter”, explicando que o Lula age como camaleão, assumindo as cores que lhe convêm em cada momento e para cada plateia.
Lula é mestre numa coisa. Desce o sarrafo no poder como se não tivesse nada a ver com ele. Isso confunde o povão e muita gente bem informada, enquanto Lula ganha tempo para articular nos bastidores.
Da política maniqueísta do PT temos hoje um país dividido, dois Brasis antagônicos.
Os petistas construíram a ideia (falsa) de que o povo brasileiro é separado por ricos e poderosos que desde sempre exploram o povo, de um lado, e por uma massa de pobres e oprimidos, de outro. Os opressores são, dizem eles, todos aqueles que não são petistas.
Trata-se, é claro, de uma visão simplista, e enganosa, do nosso país. O Brasil é muito mais complexo.
Prova disso é que muitos integrantes da elite (empreiteiros), alguns dos quais estão entre os mais ricos do Brasil, são visceralmente ligados ao PT, como ficou comprovado nas investigações da operação Lava Jato.
Diante desse labirinto, todos almejamos saber como será o nosso futuro, no curto prazo. Desprovido de minha bola de cristal, não consigo enxergar a luz no final do túnel. Meus sonhos estão na lata do lixo.
Resta apenas confessar ao caro leitor minha profunda tristeza indignada.

(*) Rinaldo Barros é professor – rb@opiniaopolitica.com

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