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sexta-feira, 22 de abril de 2016

TEXTO DO BLOG

UM ENORME DESAFIO

por Paulo Alcântara Gomes*

Numa excelente matéria publicada no jornal “O Globo”, foram apresentados dados que mostram, com clareza meridiana, as dificuldades vividas pela rede pública da educação básica no país.
Inicialmente verifica-se que 60% dos docentes não preenchem os requisitos previstos na Lei de Diretrizes e Bases, de 1996, ou por falta de formação nas matérias que ensinam, ou pela ausência de “aderência” nessas matérias, ou melhor, aqueles que, licenciados numa disciplina, acabam por ter que ministrar outras.
A falta de qualificação em algumas das áreas é estarrecedora, fazendo com que os nossos estudantes sejam “preparados” por professores que não dispõem dos conhecimentos mínimos que os habilitem para ensinar certas disciplinas.
No caso do Rio de Janeiro, por exemplo, tornou-se recorrente a prática de, a cada ano, ser solicitada ao Conselho Estadual de Educação a contratação de algumas centenas de professores que irão preencher as inúmeras lacunas nas salas de aula, em virtude do baixíssimo efetivo de docentes na ativa que preencham todos os requisitos. Infelizmente, os números nacionais não são desprezíveis.
Assim, cerca de 70% dos docentes de física não são licenciados na matéria. Na geografia, mais de 60% e na Matemática, mais de 50%. Mas o mais grave é que ainda existe um percentual apreciável, em torno de 15%, de professores que entram nas salas de aula sem ao menos portar um diploma de curso superior.
Quais são os nossos desafios para enfrentar este grave problema?
Em primeiro lugar os elevados níveis de evasão das licenciaturas. Para se ter uma ideia, enquanto que em países como a Coréia a taxa de abandono dos cursos de licenciatura é nula, aqui no Brasil chegamos a mais de 25%.
Estes índices são consequência das estruturas curriculares utilizadas, que não priorizam as matérias de formação específica e a prática pedagógica. Na Finlândia, outro exemplo de sucesso, tais disciplinas contabilizam cerca de 80% dos cursos de licenciatura e no Brasil não mais do que 35%. 
Além disso, tais estruturas não contemplam a formação transdisciplinar, determinante na organização de currículos modernos e consistentes.
Um segundo aspecto é o do nosso relativo despreparo em utilizar a capacitação em serviço. Estudos realizados na União Europeia mostram que os níveis desejados de rendimento dos alunos são muito mais facilmente atingidos se o treinamento dos professores, que já estão em sala de aula, for acelerado.
Durante quatro décadas, verificou-se que estes níveis permaneceram praticamente os mesmos, até que a formação em serviço passou a ser utilizada. Desde então, subiram 20% em menos de três anos. Um terceiro aspecto é o da avaliação do desempenho docente, ainda com muitas resistências em nosso país.
Há alguns anos, o Estado do Tennessee realizou um experimento  com duas turmas com o mesmo índice de aproveitamento, de 50%, colocando numa delas turmas um professor com baixo rendimento e, na outra, um com alto rendimento, e mostrou que, ao final de três anos, a primeira  atingiu um índice de 90% do aproveitamento ideal, enquanto que na outra houve uma regressão para 37%.
Boa educação impõe um compromisso com a avaliação permanente dos docentes, dos gestores e da própria infraestrutura das instituições de ensino. Também não há como ignorar a questão salarial, gravíssima em nosso país,
A crise que estamos vivendo, com fortes componentes políticos e econômicos, não pode permitir que os programas de relevância para o desenvolvimento sejam paralisados. Por isso, a iniciativa do MEC de procurar assegurar laboratórios de ensino para os professores que irão se qualificar, além de inovadora, é um estímulo para a melhoria das condições de oferta da educação básica.
Uma causa dos problemas que enfrentamos é a inexistência de laboratórios que associem os conhecimentos adquiridos nas aulas com a vida real, de forma a abrir as portas para o mundo do trabalho e minimizar o quantitativo dos que não trabalham e não estudam. 

(*) Paulo Alcântara Gomes ex-reitor da UFRJ e ex-presidente do SEBRAE/RJ.

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