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quarta-feira, 20 de abril de 2016

TEXTO DO BLOG

O QUE UNE O BRASIL
por Ruth de Aquino*

Não sei como será o julgamento de Dilma Rousseff no Senado, mas espero que o nível dos votos seja melhor. Porque aguentar horas de arroubos suados "pela minha esposa", "pelos meus netos e o que está por vir", "pela minha tia Eurídice que cuidou de mim pequeno", "por Deus e pela honra de minha família", "pela bandeira de minha cidade", "por Marighela", "pelas vítimas da ditadura", "pelos corretores de seguro", "pelo fim da vagabundização remunerada",  "pelos policiais", "pelo fim do Estatuto do Desarmamento", "pelo fim da troca de sexo" e, por fim, "pela memória do Coronel Ustra", conhecido torturador militar, foi, sim, demais da conta.
Vamos reduzir os votos de 10 segundos para 5 segundos na próxima etapa para evitar esse vexame todo? Sim ou não?
Não entendo o motivo do choque nas redes sociais com nossos representantes na Câmara de Deputados. Ninguém sabia que eles eram assim? O desconhecimento dos eleitores, mesmo os com diploma universitário, vai a esse ponto? Não sabíamos da indigência no idioma? Nem da falta de articulação, da falta de pruridos, da falta de raciocínio, da falta de classe, da falta de princípios, da falta de compromisso com ideias?
Ao vivo, dizem, é pior. Concordo. Muitos deputados pareciam imbuídos de uma missão divina, extraterrestre. Começavam num tom baixo e iam aumentando a um ponto tal que eu me encolhia na cadeira. Baixou a Janaina Paschoal na maioria deles. Surto coletivo das cobras. Poucos foram sóbrios.
Alguém esperava algo diferente dessa figura lamentável que é Jair Bolsonaro? Pergunta-se como alguém que elogia um torturador em público pode ser mito em um país democrático. O pior é que ele é de fato ídolo de muita gente no Brasil. Os seguidores de Bolsonaro são, para a nossa felicidade e alívio, uma minoria, mas há muitos por aí que disfarçam a admiração que sentem por ele. Sempre existirão Bolsonaros em todos os países, não podemos nos iludir. Ele deveria ser processado por quebra de decoro, porque defender tortura dentro do Congresso e diante da nação equivale a crime contra a humanidade. Por outro lado, um voto desses é salutar por expor as vísceras do autoritarismo - que só assim pode ser combatido.
Outra coisa que chocou o país foi ver centenas de votos "pelo impeachment e pelo fim da corrupção" dirigidas, em tom de reverência, a Eduardo Cunha, campeão de acusações de enriquecimento ilícito por propinas e contas secretas na Suíça. "Presidente (Cunha), eu digo sim ao impeachment, sim ao fim da corrupção!". Essa fala dava um tom tragicômico à votação. De vez em quando um se revoltava e vinha com o dedo em riste chamando Cunha de canalha e ladrão. Cunha reagia assim: "como vota, deputado? Como vota, deputado?" Já vi muitas sessões de Congresso em vários países ocidentais. Nunca vi nenhum parlamentar que não mova um músculo do rosto ao ouvir um colega o chamar de canalha e ladrão aos gritos. É caso de estudo esse Eduardo Cunha. Quanto mais cedo sair, melhor para o Brasil.
Não entendo a indignação dos governistas e petistas com a traição de todos os partidos de aluguel que eram da "base aliada" do PT. Ora, por acaso o PT fez algum esforço na última década para se manter fiel a suas raízes? Algum esforço para manter no Partido seus fundadores? Ou preferiu "fazer como todos faziam" e se aliar a todas as oligarquias rurais e corruptas que agora são acusadas de golpe? PP, PR, Maluf, Sarney, estavam todos sustentando Lula e Dilma. Quem é desleal com sua própria história não pode esperar lealdade de alienígenas.
Dilma abusou do erro - como presidente, como líder e como pessoa. Quando se escolhe um vice, e ela, Dilma, escolheu o decorativo Michel Temer, deve-se cortejá-lo, deve-se dar a ele o papel devido na liturgia, pois a carinha do outro está na chapa que ganhou 54 milhões de votos. Dilma deu tanto as costas a Temer que ele aproveitou sua fragilidade e a crise econômica do país para dar o bote. Dilma nunca foi engolida pelo PMDB nem pelo baixo clero. Foi, no máximo, tolerada. Lembram aquele áudio constrangedor da conversa do prefeito do Rio Eduardo Paes com Lula, reclamando do "mau humor" de Dilma? Lula sabia muito bem que essa era uma verdade universal no governo Dilma. O mau humor. A arrogância. A centralização. Dilma não foi talhada para ser uma presidente, e menos ainda uma presidente popular.
Não foi o fim da série, mas ontem vimos o último episódio de uma temporada. A baixa qualidade da Câmara ficou escancarada. A quem diz tratar-se apenas de nossa imagem refletida no espelho, é bom lembrar que apenas 35 dos 513 deputados foram eleitos por voto próprio - a grande maioria foi carregada pelas legendas dos partidos. Isso não nos exime de culpa. Por muito tempo o brasileiro só quis saber de carnaval, samba, suor, cerveja, praia, futebol e consumo. Alienou-se totalmente da política e até de se informar sobre o exercício da política partidária, como se não tivéssemos nada a ver com isso. Quantas vezes comentamos que nossos hermanos argentinos tinham muito mais consciência política do que nós. O que fazer para o brasileiro se interessar por política?
Já não é este o caso. Aos atropelos, empurrada por uma crise que desemprega, mata e pune com mais severidade as classes mais desfavorecidas e a classe média, Dilma sofre um pedido de impeachment que não inclui metade de seus malfeitos. Gostaria de ver investigado em detalhes o papel de Dilma no cenário arrasado da Petrobras, de Pasadena, de Belo Monte. Gostaria de ver investigada em detalhes a ligação do PT com o assassinato de Celso Daniel. Gostaria de ver investigado em detalhes o absurdo enriquecimento de Lulinha. Gostaria que José Dirceu falasse sobre Lula. Gostaria de ver investigado em detalhes o que entrou de doação ilegal e de propina de obra superfaturada na campanha da reeleição de Dilma e Temer em 2014. Gostaria de ver investigado em detalhes o que aconteceu nos bastidores dos programas Bolsa Família e Minha Casa Minha Vida.
Gostaria que Aécio Neves e todo o tucanato paulista fossem investigados em detalhes, com rigor e sem perdão. Gostaria que eles prestassem contas sobre as fraudes no metrô, nos transportes, na merenda escolar. Gostaria que o PMDB deixasse de ser essa eminência parda que dança conforme a música do poder. Gostaria que o Senado não fosse presidido por Renan Calheiros. Gostaria que todos os bandidos políticos e de colarinho branco fossem desmascarados e punidos de acordo com os crimes que cometeram. Só assim se consegue unir o Brasil. 

(*) Ruth de Aquino é jornalista com mestrado em Mídia na London School of Economics e tese sobre Ética. Trabalhou na BBC, foi correspondente em Londres e Paris, editora internacional, diretora de redação e redatora-chefe. @ruthdeaquino - raquino@edglobo.com.br

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