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segunda-feira, 21 de março de 2016

TEXTO DO BLOG

AMOR E MODELOS MENTAIS
por Rosa Avello*

Conto um fato que ilustra esse princípio. Um jovem executivo veio procurar ajuda para enfrentar uma situação crítica: a esposa lhe era infiel e ele queria separar-se. Conversei a sós com ela e constatei que considerava o marido egoísta e controlador, mas não pensava em separação: “Ele é assim com todo mundo. Quando está em casa liga para a empresa cobrando as pessoas. Quer saber detalhes, pois não confia nos funcionários. E pensa que pode fazer o mesmo comigo…”.
“Você dá razão para ele ter desconfianças?”, perguntei. Ela respondeu: “Não. Sou fiel e vivo para a família, mas, com seu jeito de ser, ele me sufoca. Se respondo, diz que estou mentindo. Se não respondo, diz que o estou traindo. Antes ficava ansiosa, mas acho que quanto mais detalhes eu der, mais controlador ele fica. Por isso agora evito responder.”.
Voltei a falar com o marido e verifiquei que a suspeita de infidelidade decorria da atitude dissimulada da esposa. Perguntei em que se baseava para acusá-la de infiel, respondeu: “Ela dava detalhes de suas atividades diárias, mas agora se recusa a responder às minhas perguntas. Esconde que tem um caso”. Quis saber o que fazia quando notava a esposa evasiva. Disse que ficava furioso e exigia que ela desse detalhes, buscava o que a fizesse cair em contradição.
Então leitor, ambos sofriam pelas “traduções” que faziam da situação.
O marido “traduzia” o comportamento dissimulado da esposa como traição. Quanto mais evasiva ela se mostrava, mais reforçada ficava essa crença e mais ameaçado se sentia. Por outro lado, a esposa “traduzia” o comportamento inquisidor do marido como controle e dominação. Quanto mais insistentes eram suas perguntas, mais se convencia de que não devia submeter-se a ele. Enquanto ele mexia no celular e na bolsa dela; ela saía furtivamente e escondia suas conversas ao telefone.
O cérebro interpreta o que nos rodeia a partir de nossos modelos ou mapas mentais. Eles são códigos individuais com partes conhecidas e partes inconscientes que foram gerados por nossa educação e por experiências significativas que tivemos. Cada pessoa tem uma história própria e passou por experiências diferentes. Cada um tem mapas mentais próprios. Eles são usados para definir as ações que melhor se encaixam nas situações que vivemos. Quando algo não parece bem, são eles que dão significado à situação e definem nosso posicionamento: podemos fragilizar e sucumbir ou fortalecer-nos e superar o problema.
Isto é, nossos problemas têm o tamanho que dermos a eles.
Mas estamos condicionados a crer que a causa de nossos infortúnios são os outros.
Isso origina a cultura da culpa que impregna as relações. Se alguma coisa vai mal, “a culpa é do outro”, portanto é ele quem tem de mudar. Ora, se é assim, não cobramos mudanças de nós mesmos. Esperamos que o outro mude para que possamos ser felizes. Mas, se ambos são infelizes e têm essa expectativa, nenhum esboçará sinais de mudança e a situação tenderá a se agravar. As cobranças e as disputas tornam-se maiores, geram a escalada de desentendimentos que põe fim à relação.
Além disso, quando não assume a responsabilidade pela própria mudança a pessoa fica obsoleta. Ao culpar os outros, mantém a crença de que seu modo de ser não está em questão, por isso continua “enxergando” as coisas do jeito de sempre. Responde de forma antiga às novas situações. Sua incompatibilidade com os outros aumenta e ela fica desatualizada e sozinha.
Quem quiser se manter jovem, tem aqui uma dica: criar o hábito de colocar o foco da mudança em si mesmo e fazer faxinas freqüentes em seus modelos mentais.

(*) Rosa Avello, psicoterapeuta na capital paulista, é especialista em sexualidade humana pelo Instituto Sedes Sapientiae, em psicodinâmica aplicada aos negócios pelo Grupo Dirigido (GD) e na aplicação do MBTI (instrumento de identificação dos perfis psicológicos) pelo Instituto Felipelli.

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