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quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

TEXTO DO BLOG

ANALOGIAS
por Luis Fernando Verissimo*

Cem advogados brasileiros assinaram um manifesto comparando aspectos da Operação Lava-Jato em curso com métodos da Inquisição.
A palavra “neoinquisição” é usada, entendendo-se que a clara referência é à ação do Santo Ofício contra inimigos da Igreja e possuídos pelo demônio, na Idade Média.
Descontando-se tudo o que cerca o manifesto publicado — as razões de cada signatário e a procedência ou não do seu protesto, e até os exageros da retórica — é curioso que a analogia escolhida para os excessos da Lava-Jato tenha sido a Inquisição.
O manifesto deu um pulo no tempo, para trás, por cima de todas as outras comparações cabíveis, como regimes de exceção recentes, e preferiu chamar o juiz Moro e seus comandados de caçadores de hereges e bruxas.
Desconfio que não usaram a analogia mais óbvia, com métodos fascistas, porque “fascista” foi vulgarizado como xingamento político entre nós. Esquerda e direita se acusam mutuamente de fascismo, tanto que a palavra perdeu todo o sentido.
De qualquer maneira, o manifesto dos advogados não precisava ir tão longe para buscar um exemplo de arbitrariedade e descaso por direitos legais. Tinham exemplos bem mais próximos, no tempo e no espaço.
CARNAVAL
Eu ia começar este parágrafo com a frase “No meu tempo...”, mas me contive: nada espanta leitores como começar um parágrafo com “no meu tempo”. Mas a proximidade do carnaval me fez pensar no tempo em que todos os anos, por esta época, já se conheciam as músicas “de carnaval” novas.
A maioria das músicas tinha vida efêmera, era cantada no carnaval do ano e depois esquecidas, mas algumas ficavam e se tornavam clássicas.
E me lembro de quando as músicas de carnaval começaram a perder sua inocência. Até então nenhuma letra “de carnaval” tinha duplo sentido, a não ser que você descobrisse alguma alusão escondida no “Pirata da perna de pau”. E então, não me lembro se no mesmo ano — me acuda, Ruy Castro — apareceram duas marchinhas seminais, que mudaram tudo. Uma era a “Índio quer apito", baseada numa anedota safada. E a outra tinha o seguinte refrão: “Não importa que a mula manque, o que eu quero é rosetar”. Não entendi o que a letra significava, mas não tive a menor dúvida de que era bandalheira. Ainda não sei bem o que é rosetar, mas sei que cada vez se roseta mais no carnaval. 

(*) Luis Fernando Veríssimo é escritor

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