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segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

CAUSOS DO BLOG

MARACATU, JURAS E PECADO
por Geraldo Duarte*

Tempo de farra momesca. Igual a hoje. Carnaval, foliões e tudo o mais.
Exceções? As fantasias nascidas no imaginário caseiro, os lança-perfumes Rodouro e Colombina, as batalhas de confetes e serpentinas, o corso de veículos nas avenidas Duque de Caxias, Heráclito Graça e Dom Manuel e os irreverentes magotes de sujos dos subúrbios.
Década de cinquenta. Bairro Aldeota, ainda menina-moça. Rua Antônio Augusto.
Mestre Jacó, afrodescendente, ali residia. Pedreiro afamado e religioso de exemplar comportamento social.
Dentre seus vizinhos, destacava-se um heroico capelão do Exército na Segunda Guerra Mundial, o padre Joaquim Jesus Dourado. Alma caritativa e estimada. Na vivência ecumênica do logradouro, morava, também, uma senhora exercitante da cartomancia, madame Zenaide. Aos olhos de uns, esotérica acreditada. De outros, visionária. De todos, pessoa humanitária. Indiferentes às crenças, os moradores cultivavam, entre si, a amizade. 
Mas, o enfocado é o inesquecível Jacó. Esqueçamos os demais do arruamento. Dediquemo-nos a ele.
Por convicção de fé, não ingeria bebidas alcoólicas, não fumava, não jogava, não frequentava festas e não transgredia os princípios e dogmas da religião que professava. Isso, em exatos 360 dias do ano do calendário gregoriano, pois no dele contavam-se cinco a menos. Constituíam, estes, sua cinquena mundana cármica anual, respeitada, arrazoada e defendida.
Desde bem antes de ingresso no culto, durante a gandaia de Momo, desfilava como passista no Maracatu Ás de Espadas e atuava nas atividades organizacionais da agremiação.
Numa data de Cinzas, contristado, sentinela do leito de amigo moribundo e integrante do bloco jurou, a pedido deste, que por toda a vida jamais abandonaria os folguedos dos negros escravos. Sempre se manteria em franca defesa e brincante da folia maior. Juramento é honra, cumpre-se! – afirmava e reafirmava.
Assim, da manhã de sábado gordo e até a quarta-feira, cumpria a quina juramentada.
Fantasiava-se de folião do cordão afro e dava-se a passeios pelas adjacências, embalado por umas, outras e mais doses sorvidas da “marvada”, no balcão da bodega do Zé Miolo, esquina da Rua Pinto Madeira.
Dali partia para as concentrações de vésperas e o desfile oficial domingueiro. Asseverava cumprir a jura ao saudoso companheiro e garantia gozar de especial licença carnavalesca de seu pastor.

(*) Geraldo Duarte é advogado, administrador e dicionarista.

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