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segunda-feira, 11 de janeiro de 2016

TEXTO DO BLOG

VIAJAR PARA FUGIR
por Ivan Martins*

Conheço um cara que viajou para o Japão depois que a mulher que ele amava o abandonou. Sei de uma moça que mudou de Buenos Aires para São Paulo porque não suportava a proximidade com o homem que não a queria mais. Todo mundo conhece alguém que mudou de cidade, de bairro ou de emprego tentando deixar para trás um grande amor. Acho essa uma saída  honrosa para desastres amorosos. Mas será que mudanças geográficas são capazes de alterar os nossos sentimentos?
Minha intuição e experiência sugerem que sim.
Nossos sentimentos se reforçam pela presença do outro. Há uma ligação direta entre o que vemos e o que sentimos. Diante do objeto de desejo é impossível deixar de desejar. Por isso as pessoas se afastam. Por isso deixam de se ver quando rompem. Mas, às vezes, o afastamento simples não resolve. Às vezes, a presença do outro é tão forte em nós que é preciso uma ruptura adicional: colocar, entre nós e ele, dois estados, um país, um oceano, um continente inteiro. Quem sabe assim desapareça o impulso de voltar correndo para quem não nos quer mais.
Sei que parece dramalhão mexicano, mas nossa vida amorosa é mesmo ridícula. Uma vez, sai de férias para ficar longe de uma mulher e gastei metade da viagem falando com ela ao telefone. Foi caro, inútil e perfeitamente patético. Ainda bem que agora existe o Whatsapp.
A tecnologia – entretanto - tornou-se inimiga das nossas nobres intenções. No passado, o sujeito subia num barco, cruzava o Atlântico e era como se tivesse mudado de planeta. Sumia. No máximo, podia enviar um telegrama. Agora, de que adianta fazer trabalho voluntário na África se o celular vai no seu bolso? Com ele seguem todas as formas possíveis de tortura e de comunicação. Além de mandar e receber mensagens, em todos os formatos, você pode assistir ao vídeo que a sua ex postou no réveillon, aparentando ser a mulher mais linda e bem-amada do planeta. Em certos dias, a tecnologia existe apenas para nos fazer mal.
Viajar impede de ver, mas não impede de sentir. Se você estiver na fase de dependência química do outro, vai arrumar um jeito de mandar – em formato de voz ou de texto – mensagens cheias de súplica e ressentimento, das quais, seguramente, se arrependerá meia hora depois. Mas isso não significa o fracasso do Projeto Viagem.
Ao deixar de ver, ao eliminar a possibilidade do encontro se ganha alguma coisa na escala milimétrica da balança amorosa. Depois de 10 dias sem colocar os olhos na criatura que o obceca, você começa, novamente, a se sentir humano, inteiro, mesmo que ainda mande mensagens chorosas para quem lhe deu um pé na bunda. Os avanços nesse terreno são lentos e frágeis, mas existem.
Logo, se você quer ser livrar de alguém e pensa em fazer isso viajando, vá em frente. Viajar é bom para o espírito. Distrai profundamente. Ventila. É verdade que levamos nossas dores para onde quer que andemos, mas é verdade, também, que as viagens nos transformam. Depois de um tempo na estrada, a carga que se leva não é mais a mesma. A mudança tem algo a ver com o vento no rosto e com a paisagem se movendo diante dos olhos. Mas tem tudo a ver com os encontros.
Algumas das pessoas mais importantes da minha vida eu conheci viajando. Longe ou perto, mas fora de casa. Foi gente que o destino colocou na minha frente enquanto eu vagava por aí. Isso efetivamente acontece. É da nossa natureza. Sozinhos, nos esticamos na direção de estranhos. Conversamos, rimos, ajudamos. Isso nos aproxima de pessoas improváveis. Nos permite recomeçar do zero diante de gente que nunca nos viu. Com alguns tomaremos somente uma taça de vinho, com outros dividiremos momentos inesquecíveis. Algumas ficarão. Mas os encontros só acontecem para quem sobe no ônibus ou no avião, para quem contrata o caminhão de mudança e recomeça a vida em outra parte.
Mudar de geografia não muda automaticamente os nossos sentimentos, mas cria a possibilidade de alterar nosso destino. Não consigo pensar em nada mais valioso pelo preço de um bilhete de avião – que pode ser parcelado em dez vezes - e de uma diária de hotel, que, embora cara, pode se revelar barata dentro de 10 anos.

(*) Ivan Martins é editor-executivo da revista Época, autor do livro Alguém especial e escreve em epoca.com.br

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