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segunda-feira, 14 de dezembro de 2015

TEXTO DO BLOG

A UNIÃO PODE RENASCER DAS CINZAS GRAÇAS AO DESEJO DOS AMANTES 
por Paulo Sternick*

O amor tem um ciclo que lembra o bonito mito da fênix, o pássaro que se incendeia ao intuir seu próprio fim, e renasce das cinzas em um leito de ervas aromáticas.
Desejo e recesso, envolvimento e indiferença, certezas e dúvidas alternam-se nas relações amorosas. No limite talvez levem à proximidade do rompimento e é nesse momento que podem renovar-se.
Os mitos atraem a imaginação porque são narrativas plenas de significações sobre nossas vidas. A fênix seduz a fantasia humana desde tempos imemoriais, simbolizando, entre outras coisas, o desejo saciado que sempre retorna; o desejo que pulsa e não considera obstáculos nem sequer as condições físicas.
Por exemplo, pessoas muito idosas podem continuar desejando, como se ainda fossem jovens. Somos uns sem-idade, diria o escritor checo Milan Kundera (74), referindo-se ao tempo nada cronológico de nossas almas. Sentimo-nos mais moços ou mais velhos do que permitiria nosso tempo de vida. E continuamos desejando amores, mesmo quando a convivência com eles já terminou, ou revelou sua impossibilidade, e até mesmo seu fracasso. Assim é o desejo humano: indestrutível.
A Sigmund Freud (1856-1939), o austríaco fundador da Psicanálise, não passou despercebido que a fênix, ao renascer das cinzas, podia simbolizar o órgão sexual masculino. Saciado, ele é capaz de rejuvenescer pouco depois, com toda volúpia.
Aqui, uma questão: por que não a sexualidade das mulheres, também? Do casal? Na poesia amorosa ao longo dos séculos, a fênix geralmente emerge da energia entre os dois amantes. O dramaturgo e poeta inglês William Shakespeare (1564-1616) escreveu o poema A Fênix e a Tartaruga, lembrando o casal em sua unidade, o ímã que os une. Os versos eternizam a beleza da união dos dois parceiros em seus ciclos de morte e de ressurreição. Celebra o amor que se acalma e renasce.
O outro lado da fábula é a fantasia de que amores impossíveis ou fracassados podem ressurgir como por magia. Aqui, a fênix que tanto nos fascina é a ilusão de um eterno retorno: podemos ser imortais e nossos amores não acabam. Nada disso, no entanto, é real.
Em situações complexas, casais talvez sintam que chegaram ao fundo do poço. Não veem saída. No entanto, quase em cinzas, ocorre de súbito experimentarem um renascer estimulante do amor. A crise não significou o final e, sim, o início de um novo ciclo, eventualmente movido pelo medo de se perderem. O amor, a um só tempo o anterior e outro, o novo, reviveu. Não houve mágica a mudar o cenário ou a eliminar as tensões do passado. O desejo de ficarem juntos trouxe de volta a atração e o estímulo para salvar o relacionamento: energia e persistência para enfrentar os obstáculos, lidar com o desânimo e o feijão-com-arroz do dia-a-dia.
Até pessoas separadas há muito tempo, mas que evoluíram e cresceram, podem ter uma segunda chance, se atraídas por desejos recíprocos, renascidos. Só se a balança continuar negativa, o mito da fênix não será símbolo de vida, mas de um círculo vicioso de repetição destrutiva, enredando o casal em impasse e desamor.
O forte desejo que ressurgiu foi nostalgia, inspirado na crença de que existe mágica, impulso dissociado da realidade. O casal que se renova quando sai da crise experimenta a tensão entre o velho e o novo, consciente de que não deve repetir as armadilhas do passado. 
Ao mesmo tempo, os parceiros conservam os traços essenciais que os uniram, tanto quanto alguns de seus dilemas. E só serão verdadeiros se conviverem com suas dúvidas, desamores, ódios e indiferenças, que se alternam com desejos, encantamentos recíprocos e certezas de amor eterno. Se tiverem competência de manter os afetos positivos pesando mais do que os negativos, é grande a possibilidade de a fênix renascer das próprias cinzas em um leito de ervas aromáticas.

(*) Paulo Sternick é psicanalista no Rio de Janeiro e em Teresópolis (RJ), membro da Sociedade Internacional da História da Psiquiatria e da Psicanálise, com sede em Paris (França), e editor da revista Gradiva.

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