MULHERÃO
Publicitária, mais de um metro e oitenta de
altura, 120 quilos e lésbica. Numa época em que assumir a homossexualidade era
para mulheres de fibra.
por Ruy Lima
Angela Borges foi uma das mulheres mais extraordinárias que já conheci.
Publicitária, mais de um metro e oitenta de altura, 120 quilos e lésbica. Numa
época em que assumir a homossexualidade era para poucas mulheres de fibra.
Sempre muito elegante e bem vestida. Olhos verdes de ofuscar. Jamais passava despercebida.
Também com esse tamanho, dirão. Era uma das conversas mais agradáveis da
cidade. Inteligente e mordaz. Polêmica, crítica e ferina. Doce e delicada.
Contraditória. Amável e sutil. Generosa e expansiva. Ângela foi uma guerreira
da liberdade, transgressora contumaz. Muito antes de surgirem os movimentos
coletivos, foi uma líder em defesa da livre expressão, do respeito às
diferenças.
Recentemente a imprensa brasileira voltou a falar do cearense Paulo
Abel, uma das mais belas vozes da ópera mundial. Paulo era um “castrato”
natural, ou seja, tinha um registro vocal de mezzo soprano. No século 16,
quando as mulheres foram proibidas de cantar nos corais, a santa igreja
católica castrava jovens rapazes, em geral órfãos, para fazer as vozes
femininas no coral da Capela Sistina. Não foi o caso de Paulo Abel, que não
perdeu o bilau. Tinha apenas uma deficiência congênita na produção de
testosterona. A castração de rapazes para servir como cantores da Igreja só foi
abolida em 1878, pelo papa Leão XIII.
Em 1991, Paulo Abel fazia carreira na Europa e veio a Fortaleza. Alguns
anos antes havia participado do filme Ligações Perigosas. O diretor Stephen
Frears ficou tão fascinado pela voz de Paulo que usou praticamente toda a
sequência que ele gravara cantando. No Brasil, passou por várias humilhações,
fruto do preconceito e da intolerância. Chegou a ser expulso do Festival de
Campos de Jordão.
Ângela Borges organizou para ele, na casa do Porto da Dunas, uma noite
inesquecível. Jantar a luz de velas com direito a recital. Foi um
reconhecimento quase tardio a um grande talento. Uma bofetada de pelica numa
elite cultural arrogante e medíocre. Coisas de Ângela Borges. Paulo Abel já
estava doente e morreu pouco depois, em Paris, vítima de complicações
decorrentes da Aids.
Certa época renovava-se a direção da TV Manchete, de Fortaleza. Oscar
Bloch, vice-presidente da empresa, pediu a Guto Benevides, diretor da sucursal,
para selecionar três ou quatro candidatos. Ele viria entrevistá-los
pessoalmente. Lá estava Ângela Borges e outros três concorrentes. Homens.
Oscar, machista inveterado, deixou Ângela por último. Deu-lhe um chá de
cadeira. Ângela impassível. Ao ser chamada, entrou com todo charme e simpatia
do mundo. Deu uma aula de mercado, exibiu talento e profissionalismo.
Impecável. Oscar Bloch virou-se para ela com ar de desdém e jogou-lhe na cara:
“E por que você acha que eu vou escolher uma mulher, em detrimento dos
outros candidatos, tão brilhantes quanto você e com a vantagem de serem
homens?”
Ângela jogou o corpanzil na direção dele por cima da mesa, olhou com
aqueles olhos verdes fulminantes, bateu na mesa com a mão direita e disparou:
“Porque eu tenho o pau maior do que o deles, seu Oscar!”
Foi contratada na hora.
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